domingo, 3 de janeiro de 2010

Eles não sabem nem sonham, João



Ultimamente, os textos de João Lopes têm desancado forte e feio na cultura televisiva pimba nacional, o que me tem deleitado imenso estar a ler.
Desta vez, ele liga com mestria o lançamento em DVD do poderoso e visceral Quem Tem Medo de Virginia Woolf? (um dos meus all-time favorites), com a falta de imaginação dos programadores televisivos, e com a expurgação completa do preto e branco na tv generalista.

Se virmos com cuidadosa atenção, o preto e branco foi banido totalmente da tv, salvo raras excepções (algum filme ao Sábado à noite, no canal 2); sendo que, em virtude dessa fatal opção dos programadores, as pessoas foram educadas a olhar para a ausência de cor, como algo pitoresco, até ridículo... algo completamente datado, a que não se deve dar a mínima atenção.

O mais insólito da problemática é que, muitas das pessoas que fazem pouco do preto e branco, são pessoas que (por razões que eu considero misteriosas), lêem o Balzac e o Tolstoi, que o João Lopes menciona. E que gostam de os ler. Aliás, quantos amigos não conhecemos nós, que têm como livro favorito O Retrato de Dorian Gray ou Oliver Twist, ou seja, estudaram as obras no liceu/universidade, e então começaram a amá-las e a entendê-las a sério, mesmo apesar de serem livros com mais de 100 anos de idade. É tudo então uma questão de educação, como João Lopes inerentemente sugere - as massas podem e devem ter o direito de ser educadas através da TV, se também o foram na escola. Estou completamente de acordo.

Em relação à parte final do texto, o crítico aponta o dedo a outro argumento, dado normalmente nos ataques aos programas a preto e branco - o alegado excesso de palavra - e dá como exemplo (e muito bem) os debates e as telenovelas, de que as pessoas nunca se parecem queixar, aliás parece que são esses os tipos de programas com mais audiências, para além do futebol. Esse argumento é no mínimo, tolo, pois as telenovelas vivem precisamente da palavra - aliás, nas novelas, os personagens nunca sabem expressar emoções através de nuances ou gestos - quando querem exprimir tristeza, dizem "Tou muito triste", basta ver o expoente máximo dessa autêntica escola "de qualidade", ao nível do método Stanislavsky, que são as novelas da TVI. Quanto aos debates, também estes vivem de uma orgia louca de palavras; e são terreno fértil do caos e do pedantismo (ver o Eixo do Mal, por exemplo), mas uma vez que o povo quer é porrada, este tipo de espaço também prolifera na grelha televisiva.

O filme Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, aliás, é uma valente chapada na cara da televisão, não só portuguesa, mas também estrangeira - em nenhuma novela, à escala mundial, vocês serão capazes de encontrar uma experiência conjugal mostrada de forma tão intensa e marcante, como a de Richard Burton e Liz Taylor, no mesmo filme.

Como adenda ao parágrafo de conclusão do texto de que falamos - creio que o mundo é interessante, mas não o é às nove e meia da noite na TV. Na noite em que for para o ar Quem Tem Medo de Virginia Woolf? às nove e meia, tenho a certeza absoluta que, no dia seguinte, o governo cairá; porque as pessoas não precisarão de mais ninguém para viver - serão autosuficientes para viver por elas mesmas, e não terão bonecos telenovelescos a ditarem comportamentos supostamente correctos.

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