terça-feira, 7 de setembro de 2010

Quando coisas más acontecem a pessoas boas

Pauline Kael dizia que um filme é só para ser visto uma vez na vida. Apesar de ela ser a pessoa que mais gozo me deu a ler sobre Cinema (pelo feitio intratável, mas também por um acutilante sentido crítico), eu discordo dela. Acho que um filme pode ser revisto, se for para nos dar um novo prisma de algo que nos escapou.

Vem esta conversa a propósito de Funny Games, que visionei hoje, a versão original de 97, para ser preciso. Vi o remake protagonizado por Naomi Watts no cinema não há muito tempo, que odiei e não foi pouco - achei um filme sádico, manipulador, de uma frieza desumana da parte do realizador, e saí da sala revoltado com o destino que é dado à família.

No entanto, ao ver a versão original, verifico que esta surpreendentemente resulta, apesar da história ser idêntica. Porquê? Talvez por o filme ser alemão. Talvez por ter actores que não conhecemos tão bem. Talvez por vermos aquele cenário ser mais plausível na Europa? Não, isso também não. Então e o massacre da mulher e dos amigos de Polanski, que sucedeu em 1969? Talvez a principal força no original resida no facto de ser um comentário à sociedade americana, enquanto o remake falado em inglês se anula a si mesmo, por se passar nos EUA, o país visado no primeiro filme.

No original de 97, nem a cena do telecomando, que no remake fez as pessoas gritarem "buh!" de ultraje no cinema, me revoltou. Talvez pelo facto de eu já saber que destino iam ter as personagens, fez-me ver com frieza todo o espectáculo de horror que se passava à minha frente. E então o original fez-me constatar uma série de coisas:
- A nossa sociedade está tão anestesiada na dependência de telefones e telemóveis, bem como nos confortos materialistas, que sem se aperceber, isso irá causar a sua própria auto-destruição;
- Vi o quanto devem ter sofrido os ocupantes da casa de Cielo Drive, nas mãos daqueles monstros, em 1969;
- A complacência com que toleramos certos indivíduos e certos comportamentos agressivos, poderão causar a nossa aniquilação;
- Tentar chegar a uma conversa racional com serial-killers, ou tentar convertê-los à nossa razão (eu não digo à Razão, pois eles têm uma razão própria), poderá causar a nossa morte;
- Quando eu estiver numa situação que me desagrade, tal como acontece com a cena dos ovos, no filme, vou pensar seriamente em agarrar no primeiro objecto contundente que tiver à mão, e matar para não ser morto - o que não falta por aí é psicopatas a estudarem a melhor maneira de nos chacinarem.

2 comentários:

João Gonçalves disse...

Eu adoro este filme. Vi primeiro a versão alemã e surpreendeu-me muito. O americano é copy paste practicamente. Mas é como dizes, e concordo, o primeiro parece muito mais credível, para além de mais assustador...

é o único filme que gosto do Haneke. Dos que vi...

Ricardo Martins disse...

Obrigado pelo comentário, João! Cheguei a pensar que só o meu amigo João Franco lia o blog.

É, o primeiro é sem dúvida melhor.