quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Most men lead lives of quiet desperation and go to the grave with the song still in them.

Henry David Thoreau

sábado, 24 de dezembro de 2011

Bom cinema (português)


Hoje finalmente consegui ver Duas Mulheres de João Mário Grilo, nunca tinha visto nenhum filme dele, e agradou-me o que vi - está filmado de forma competente, algo fria e distante para o meu gosto, mas com sensações de suspense e medo a perpassar a história para nos deixar agarrados até a cena seguinte.

Recomendo mesmo às pessoas que não viram o filme a leitura da entrevista do realizador dada à revista Visão.

O filme mostra a realidade pura e dura, e quem faz novelas teria muito a aprender se visse Cinema Português, mas com olhos de ver... e não apenas para ver as cenas lésbicas (não que elas deixem de ter o seu valor).

sábado, 17 de dezembro de 2011

Pão e circo


É espantosa a maneira como certas imagens vão para o ar em repeat - a queda das Torres Gémeas, e agora a queda do prédio do bairro do Aleixo. Há ali toda uma encenação espectacular das notícias, que só os mais ingénuos poderão considerar como espontaneidade.

João Lopes tem razão - enquanto as pessoas não pensarem o significado e as intenções por detrás das imagens no nosso espaço mediático nacional, o país jamais poderá crescer.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Um belo começo

Quis o destino que só em 2011 me tenha cruzado com El Mariachi, realizado por Robert Rodriguez em 1993. Magnificamente realizado e escrito (a maneira como os clichés do género são subvertidos a toda a hora) pelo então muito jovem Rodriguez, que tinha apenas 23 anos; devo dizer que à semelhança de Citizen Kane este é daqueles filmes que não me importava nada de ter realizado, como debut em cinema.

É possível fazer grande cinema com parcos recursos.

domingo, 11 de dezembro de 2011


À falta de melhor para fazer, e uma vez que o Natal puxa a nostalgia de cheiros passados, meto este vídeo que nos faz recuar à vontade uns 20 anos para trás.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Sem grande surpresa...


O filme que importa ver este Natal é o novo Cronenberg.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Mete-se o Natal

Quando atravessamos os inevitáveis feriados com ponte, lembro-me deste texto dos Gato Fedorento, que eles brilhantemente observaram em 2003, antes da infame "crise" portanto. O texto é uma metáfora perfeita da maneira de ser e de estar de um largo número de portugueses:

METE-SE O NATAL: Quem já lidou com serviços, sabe o que é isto: “Pronto, o requerimento está entregue. O problema é que isto é capaz de atrasar” (pausa dramática) “porque agora mete-se o Natal...”, acaba por dizer o funcionário, como quem anuncia um acidente. Apanhados de surpresa, damos por nós a murmurar, com pesar “Ah... não me diga. Pois, se é assim...” Quando, o que devíamos dizer era “Ó meu amigo, o Natal não se meteu coisa nenhuma, porque já o ano passado – e esta tem graça! – se tinha metido nesta altura. Como aliás, salvo erro, se tinha metido no anterior. Ou não? Espera... Sim, já se tinha metido no anterior!”
Mas estaria a ser injusto para o funcionário, que só quer fazer o seu trabalho e não tem culpa por ter sido apanhado de surpresa pelo Natal, que se “meteu” no meio do serviço, atrasando a produção uns quinze dias. Isto porque, não contente em “meter-se”, pôs uma cunha e “meteu” também a véspera. Além disso, quando o funcionário julga que o caminho está livre para dias e dias de trabalho ininterrupto, eis senão quando se “mete” o Ano Novo. Sacana. E o funcionário, coitado, ainda a refazer-se da surpresa da primeira metidela.
Todo o ano, invariavelmente, o trabalhador português é surpreendido por este “meter-se” do Natal.
- Ó Silva, tens tudo preparado para acabar o serviço?
- ‘Tá tudo pronto chefe, se não acontecer nada de estranho, tenho isto acabado dia 26.
- Óptimo!
- Ui... Espere lá... Estou aqui a consultar o calendário... É pá....
- O que foi?
- O chefe não vai acreditar, caraças, mas vai-se meter aqui o Natal!
- O Natal? Poça! E agora?
- Agora? Só acabo isto lá para Janeiro. E, e!
É uma tragédia. O governo devia pensar em fazer alguma coisa, já. Quer dizer, agora, só lá para o ano, claro. ZDQ

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Breve apontamento de feriado


Haveria alturas num passado não muito distante, em que filmes como Halloween II ou American Beauty passariam a partir das 22h. Tanto por causa da violência (o primeiro) ou por assuntos tão sérios que só poderiam passar a partir de uma certa hora por causa de espectadores mais susceptíveis de se chocarem ao olhar no espelho. O que é certo é que ambos estavam a dar agora na cabo - Halloween II num dos telecines e o Beauty no Fox Movies.

Se me incomodo ou me escandalizo? Nem por isso. Porque os generalistas passam coisas bem piores durante o dia, e mesmo o gore de Halloween empalidece face ao grafismo e obscenidade do "realismo" dos telejornais, aquele "mundo real" tão proferido pelos jornalistas, e que temos que mamar quer queiramos, quer não - crianças a chorarem com fome em África, homens engravatados perseguidos por uma multidão de repórteres, quase sempre aquela incessante cruzada à procura dos responsáveis da "crise".

Se as pessoas parassem por 10 minutos de procurar esse "mundo real" e se mudassem para os canais de cabo, se calhar aparecia-lhes algo com que se devem genuinamente preocupar, como os vizinhos do lado, e não realidades que não são do nosso domínio, como gente engravatada de Bruxelas.

Filmes de bola vermelha hoje em dia podem ser imagens bem mais interessantes do que as dos noticiários.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

A classe jornalística que temos


Este vídeo tem andado a circular na net, e nem sempre é analisado de forma correcta.

Por um lado sim, talvez o Ensino esteja pior, mas por outro como diz um comentador na página do Youtube, e com muita razão - gostaria de ver o resultado quando fizerem o mesmo tipo de teste a jornalistas e ministros e depois de editar só mostrar as respostas erradas...

A coisa mais fácil do mundo é encontrar gente estúpida. Podemos encontrá-la não apenas em Portugal, mas também em Inglaterra e nos EUA. O mais difícil e digno de valor é encontrar pessoas únicas.

sábado, 12 de novembro de 2011

Exterminador 3: O poder da cona


Era assim que se devia ter chamado o terceiro filme do franchise norte-americano originado por James Cameron. Ao conseguir ver pela primeira vez o filme, desde a sua remota estreia em 2003, o que me ocorreu foi que o filme era uma espécie de O Sexo e a Cidade cruzado com os dois primeiros filmes, ou seja uma espécie de gaja super boa robótica que vinha do futuro para perseguir John Connor e dar porrada em Arnie Shwarzenegger. Os homens que se cuidem.

O filme ainda nem 10 anos tem e já parece tão tolo...

The city that never sleeps...


Este vídeo descobri graças ao meu irmão. Trata-se de um fantástico roteiro turístico sobre uma das mais bonitas cidades portuguesas... Mem Martins!

Recomenda-se

Algumas visitas a este blog, que abriu recentemente, e vem fixar a tinta na Internet alguns dos rostos do crime, corrupção e da maldade em Portugal. Para um país que tem fraca memória, nada como reavivar de vez em quando a recordação de alguns dos actos mais vergonhosos que se fizeram por cá, e que a justiça deixou passar praticamente incólumes.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Non disturbare



Pois tenho estado a jogar Murder on the Orient Express, a versão em pc da obra homónima de Agatha Christie. Não é para pessoas impacientes que só querem acção, este é um jogo com muitos diálogos e pouco movimento; mas se forem (tal como eu) grandes fãs da ficção da autora, esta é uma oportunidade imperdível de revisitar os universos misteriosos e as personagens dúbias criadas pela maior escritora de policiais de sempre.

sábado, 5 de novembro de 2011


Quem me conhece, sabe que eu adoro os EUA e que um desejo pessoal há muito alimentado é conhecer aquele país, que influenciou a minha geração, bem como os nossos costumes ainda hoje em dia.

Mas, mesmo os fãs mais aguerridos da nação do tio Sam não podem negar que esta é a visão que uma larga fatia dos americanos têm do resto do mundo.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Apartheid... ontem como hoje


Quem me conhece sabe do meu ecletismo de gostos a nível de cinema, e a minha curiosidade em conhecer géneros diferentes, cinematografias de países diferentes e filmes de épocas variadas.

A nível de televisão só agora começo a reparar em algumas coisas, e algo que me salta nitidamente à vista é o conservadorismo da nossa ficção comparativamente com outros países. Praticamente não há actrizes e actores de raça negra nas novelas, e mesmo os brasileiros que se entrosaram bem no nosso mercado de trabalho, estão misteriosamente ausentes. Também não existem mulatos ou gente de etnia indeterminada na ficção nacional. Uma pessoa muda para a RTP, SIC ou TVI e só vê portugueses de gema, não há cá lugar para híbridos, parece.

Creio que se houvesse mais intercâmbios com actores (bem como técnicos) de outros países, mesmo sem serem de língua portuguesa, a nossa televisão aprenderia muito mais, e se calhar conseguiria sair desta espécie de Idade Média em que ainda reside.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Tempos "modernos"

Não consigo deixar de me espantar com a hipocrisia da classe jornalística. Volta e meia vêm para a televisão maçar-nos com reportagens repetitivas plenas de deja vu - de "como os jogos de vídeo estão cada vez mais violentos" ou de "como os filmes estão a ficar cada vez mais violentos" - mas não têm vergonhas quando se trata de mostrar cadáveres de pessoas nas capas dos jornais e nos noticiários televisivos de horário diurno.

Há umas semanas foi o corpo da velhota assassinada Rosalina, agora o ex-ditador líbio.

Inenarrável. Ainda temos muito que crescer para nos equipararmos aos animais.

terça-feira, 18 de outubro de 2011


Tinha umas saudades enormes de desenhar com lápis de cera. É um material bem mais maleável do que me lembrava.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Frase do dia

O Homem tem feito a Terra um inferno para os animais.

Arthur Schopenhauer

domingo, 16 de outubro de 2011


A crítica tem-se dividido em torno de Contágio. Eu adorei o filme, foram quase 2 horas que não dei pelo tempo a passar, mergulhado na tensão da história. Quem me conhece, sabe que eu adoro filmes-catástrofe como The Towering Inferno ou The Poseidon Adventure.

Há uma metáfora inquietante no filme - quando uma personagem recomenda a evitar todo e qualquer "social contact", vem-nos à mente as redes sociais e de como as pessoas progressivamente estão a preferi-las ao contacto humano. Será que é a maneira de Soderbergh nos dizer que estamos a isolarmo-nos cada vez mais?

terça-feira, 11 de outubro de 2011

A meu ver, raro é o artista que tem o dom da humildade. E num mundo tão competitivo e pleno de casos de injustiça, quem é que nunca sentiu inveja na vida?

quarta-feira, 5 de outubro de 2011


Confesso: sou fã de Tintin. Creio que não há grande vergonha nisso, pois os fãs em todo o mundo ascendem aos milhões. Relendo O Lótus Azul, volvidos estes anos todos, constato o génio contido na escrita e nos desenhos aparentemente simples de Hergé. Naquela aparente estória juvenil de quadradinhos está contido um herói de grande valor, e uma ética plena de ensinamentos para todas as gerações.

Da crítica

Houve uma altura que quis ser crítico de cinema, mas hoje dou graças por não ter seguido esse caminho, pois deve ser a profissão mais desrespeitada da face da terra. Porquê? Porque é uma coisa que as pessoas já têm tão entranhada, que não conseguem imaginar que alguém possa ser pago para o fazer. Para a maioria das pessoas, tal coisa existir, seria como ser pago para comer ou para ir à casa de banho.

Basta seguir na rua para observarmos como cada pessoa lá no fundo tem um crítico de cinema e de televisão, e o à vontade com que proferem os seus juízos.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Este texto é muito interessante e completamente verdadeiro. Porque é que eu às vezes tenho a sensação que as pessoas estão-me a pregar petas? Porque é que eu às vezes tenho a estranha sensação que a maior parte das pessoas só fala palha? Porque é que a maior parte das pessoas, quando abre a boca, só diz frases feitas?

domingo, 2 de outubro de 2011

Um filme do catano


Os meus amigos e leitores auteuristas que me perdoem, mas Where Eagles Dare é pura e simplesmente um dos maiores filmes de todos os tempos. Dirigido em 1968 por um realizador desconhecido, mas equipado com uma equipa de guionistas, efeitos especiais e actores de primeira categoria, numa altura em que era possível ter actores fantásticos como Richard Burton e um jovem durão Clint Eastwood com uma metralhadora em cada mão a matar nazis, o filme é muito mais do que guerra - é pleno de aventura e de suspense.

Evidências do génio do filme:
- As cenas da neve, os cenários reais, sentimos que estamos lá;
- Burton. O manobrar dos nazis na cena da mesa enorme, os twists e os bluffs, ele dá uma masterclass de interpretação que devia ser assistida por muitos ditos actores de hoje;
- A cena do teleférico e a fuga final.

domingo, 18 de setembro de 2011


Para aquelas pessoas que dizem que não dá nada nos 40 canais de cabo, hoje às 21h15 na RTP Memória dá um dos meus filmes favoritos de guerra de sempre, precisamente porque tem um dos melhores casts de sempre - Michael Caine, Robert Duvall, Donald Sutherland e Donald Pleasence.

sábado, 17 de setembro de 2011

A ler muita BD


As BD's de X-9, criadas por Alex Raymond e Dashiell Hammett, são brilhantes. É todo um estilo diferente, o estilo de desenho anos 30, mas não é por por isso que deixa de ser tão fantástico como o de hoje em dia.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

segunda-feira, 12 de setembro de 2011



Ando a ver grandes filmes ultimamente. E confirma-se: estes dois que estão em cima são dos maiores filmes que se fizeram na década de 90.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

É a tecnologia, parvo!

É isso o que me ocorre ao navegar no Google Earth, mais concretamente no Street View. Aquilo melhorou imenso desde a última visita que lá fiz. Agora não é preciso estar sempre a clicar com o primeiro botão de rato para passar à visão seguinte de rua, basta simplesmente carregar nas teclas de direcção trás/frente/esquerda/direita, tal e qual um jogo de pc - vemos Lisboa ou qualquer outra cidade do mundo como se de facto lá estivessemos.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Wtf?!

Isto é pura e simplesmente demasiado pós-moderno para mim. Jesus com perfil no face?! Será que é ele próprio que o actualiza?...

domingo, 4 de setembro de 2011

Considerações sobre a vida


Por vezes, dou por mim melancólico, pensando nos momentos bons da vida, que passei com pessoas que nunca mais voltei a ver ou a ouvir falar. Ou por terem ido para fora do país, ou por estarem dentro e nunca mais terem dito nada. Será que para essas pessoas eu não signifiquei assim tanto como elas significaram para mim? Será por isso que nunca mais disseram um olá?

Como a vida é inconstante e imprevisível.

Oiço este tema instrumental dos Madredeus, num final de tarde de um final de um Verão que deixou algo a desejar, e a espinha arrepia-se...

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Este post é dedicado ao meu amigo JF

There are many obstacles that stand in the way of change, ranging from emotional baggage and ingrained habits to an environment that reinforces the status quo and is hostile to change.

Que é um grande admirador de new age e da auto-ajuda, mas que talvez seja demasiado fiel a essas indústrias/esquemas para o seu próprio bem.

De maneiras que é assim


Não ando com muita pachorra para estar a escrever grandes textos (até porque acho que ultimamente tenho estado mais iluminado na vida lá fora), por isso posto estes slogans fantásticos que estão no Dias Úteis do Pedro Ribeiro.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Algumas afirmações sábias...

De Pedro Boucherie Mendes, cujo livro tive oportunidade de folhear há dias na Fnac. O júri de mau feitio dos Ídolos tem mais humor e inteligência do que eu previa. Eis algumas observações que ele faz a uma moda recente dos portugueses:

As redes sociais são o intestino da alma, ideais para activistas de sofá.

O sucesso das redes sociais assenta no facto de não exigir muito de nós.

Na fantasia do Facebook, todos aqueles amigos são amigalhaços do peito e fariam qualquer coisa por nós - dar um rim, uma boleia, etc.

domingo, 28 de agosto de 2011

Breve apontamento sobre a ficção portuguesa

Não há muito tempo ouvi algumas pessoas a pronunciarem-se de forma depreciativa em relação a séries portuguesas, afirmando peremptoriamente que as mesmas não passam de imitações baratas de séries americanas.

Sim e não. Se, por um lado são descaradamente influenciadas por séries como Anatomia de Grey (ver Maternidade), ou CSI e outras séries de investigação (ver Cidade Despida, por exemplo); por outro lado são passos essenciais para melhorar a ficção televisiva nacional.

Cidade Despida não é daquelas séries que me vai tirar o sono, fazendo-nos anotar na agenda para não nos esquecermos de gravar, mas há dias tive oportunidade de revê-la em repetição na RTP 1 (uma vez que da primeira vez estava com muita coisa na cabeça) e até que gostei. É melhor realizado do que as novelas fast-food, sabe transmitir um ambiente tenso, sabe apresentar personagens de forma subtil, tem óptimas equipas de duplos e de efeitos especiais para dar mais realismo.

Pode não ser uma obra-prima, mas eu penso que é um passo essencial no sentido de construir uma televisão portuguesa com maior qualidade. Não bastam novelas com enredos iguais de há duas décadas para fazer avançar a máquina da ficção.

sábado, 27 de agosto de 2011


Apesar de adorar os EUA, só ali poderia surgir um fenómeno como Oprah Winfrey. Esta paródia do Madtv capta bem as nuances e contradições do programa e da persona pública dela.

domingo, 21 de agosto de 2011

As silly seasons


Há dias lia um texto já não me lembro de não sei quem, no Expresso ou no Sol, que acreditava "que não existem silly seasons", e dava como exemplo o Verão quente de 1939, quando a maioria da classe média francesa foi a banhos, graças ao então recém-adquirido subsídio de férias. Enquanto isso, a Wehrmacht de Hitler preparava a sua blitzkrieg, a ofensiva relâmpago para o início de Setembro.

Há alturas em que concordo com o que esse colunista escreveu, outras vezes que discordo. Discordo, por exemplo, ao ler notícias deste calibre num jornal que devia ser sério como o DN. Eu gosto de Alexandra Lencastre, mas mesmo ela, se for estimulada para isso, pode ser idiota até dizer chega.

Mas também, se formos a ver com mais atenção, o não dizer nada, ou o falar não comunicando de todo, é algo inerente a todas as épocas - não exclusivamente da estação quente. Como tal, não podemos pegar por aí.

Quando por esta altura não vou a banhos, aproveito para seguir o exemplo de Hitler - preparo a minha blitzkrieg pessoal de Setembro. Agora estava a dar no canal Odisseia um documentário fascinante sobre a mente de Marylin Monroe, e as complexidades e os problemas de uma menina-mulher sex symbol, questões que são desconhecidas para muitos.

E aí, constatei que não existem estações silly. São apenas silly se as tratarmos como tal - a profundidade e a sensibilidade podem existir onde menos se espera, quer na praia, quer no cinema, quer num documentário aparentemente inócuo. Se a maioria dos colunistas procuram profundidade nos sítios do costume (como a imprensa dita séria), isso demonstra a clara falta de visão que o jornalismo neste país tem vindo a padecer.

sábado, 20 de agosto de 2011

Do que não se viveu


Se Maria Filomena Mónica gostava de ter vivido no século XIX para seguir o quotidiano lisboeta queiroziano, Quentin Tarantino adorava ter vivido como adulto os anos 70 para fazer filmes blaxploitation. To each his own.

Pessoalmente, já desejei ter vivido os anos 30 americanos para presenciar estreias de filmes como Gone with the Wind ou dos musicais com Ginger Rogers e Fred Astaire. Já desejei ter vivido na década de 40 em New York, por exemplo, para presenciar o surgir do film noir. Desejei ser um dos primeiros espectadores de Vertigo e de Psycho nos cinemas, delirar com as campanhas publicitárias de Hitchcock, na década de 50 e 60. Mais recentemente, desejei ter presenciado os anos 60 britânicos, e viver a pleno a swinging London, do nascimento dos Beatles e das estreias dos 007.

What a hell. Uma pessoa nunca tá contente com o que tem.

Só agora começo a dar valor à época em que vivo. Ontem e anteontem tive a ver maratonas de animação que dão no Fox, mais propriamente dos Simpsons, e por Deus, talvez pela primeira vez na vida comece a sentir-me honrado por ter vivido a década de 2000 e o ano 2011. Pois aquele é talvez o maior desenho animado de sempre, e se tivesse vivido a pleno os anos 50 e/ou 60, provavelmente a esta hora já não andava por cá... ou andava... mas completamente senil.

domingo, 14 de agosto de 2011

O meu plano favorito da História do Cinema

Está aqui, no Cine Resort. Um abraço e um grande obrigado ao João Palhares pelo amável convite.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Para amares os outros é necessário primeiro amares-te a ti próprio


Só ultimamente comecei a compreender este ditado. Por incrível que possa parecer, não é um ditado narcisista, em que nos é requerido que adoremos o chão que pisemos, e que veneremos a nossa imagem.

Nada disso. O sentido do ditado é que se não nos respeitarmos física e psicologicamente, se não respeitarmos a nossa natureza, os nossos talentos, nada se faz.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011


Este vídeo do Bruno Nogueira já é antigo, mas só o vi hoje pela primeira vez, e é absolutamente hilariante e trágico ao mesmo tempo - trágico porque reflecte a não-comunicação dos tempos modernos. A forma como aquela rapariga continua a estar em linha com um cliente que não percebe é uma perfeita metáfora da forma como as pessoas levam as suas vidas.

domingo, 7 de agosto de 2011

O que ando a ver

Family Guy Comecei por ver as paródias a Star Wars, como Blue Harvest e Something Something Dark, mas acabei por ficar grudado naquelas estranhas personagens, principalmente no maléfico bébé falante Stewie. Uma série mais hardcore e politicamente incorrecta do que The Simpsons, mostra uma face dos americanos que eles se calhar prefeririam ignorar. Está a passar no Fox.

The Office A versão britânica que já andava há algum tempo para ver, é bem melhor do que antecipava. Relata o dia-a-dia num escritório de uma indústria de papel em Slough, mas as realidades ali são bem reconhecíveis e fáceis de estabelecer paralelos com o nosso quotidiano - o patrão pulha, machista, e convencido de que é um humorista nato; o cinzentismo das rotinas de trabalho; as intrigas; os flirts e os romances, etc. Uma série absolutamente brilhante.


sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Frase da semana

Be yourself, because everybody else is already taken.

Oscar Wilde

sábado, 30 de julho de 2011

O que se faz numa sonolenta tarde de Sábado


Com Lisboa entregue aos turistas, e a maior parte das pessoas a caminho de férias, as tardes solitárias de Sábado nem sempre são tão más quanto eu esperava. Estava agora a dar no BBC um documentário fascinante intitulado How the Beatles rocked the Kremlin, sobre a forma como banda influenciou as pessoas da União Soviética, mais do que seria de esperar.

No documentário vemos relatos de então jovens na altura, e do quão era difícil conseguir alcançar música proibida pelo sistema, e de como a maneira de ser e de vestir dos Beatles influenciou a juventude da década de 60, e posteriormente. Vemos ainda concertos de comemoração com covers das canções, coleccionadores fanáticos de bugigangas, e até uma terreola cujos ranchos folclóricos têm claras influências da banda.

O documentário acaba por adquirir toda uma dimensão pungente, quando vemos Paul McCartney a ir tocar pela primeira vez à Praça Vermelha em Moscovo em 2003, e em Kiev em 2008, perante uma multidão delirante de miúdos e graúdos, celebrando a música da banda como um autêntico símbolo de resistência contra um regime repressivo. Os Beatles acabaram por ganhar a Guerra Fria.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Dos que querem ser omniscientes

Normalmente até costumo gostar dos textos do autor deste blog, mas desta vez não posso concordar com o texto que escreveu. Ora gaita! Então há séries e filmes a mais? Mas isso não é supostamente algo de bom? Volta e meia não há pessoal da crítica que se queixa que não aparece nada de jeito?

Basicamente o autor do blog e Nuno Markl queixam-se que têm saudades do tempo em que havia só o Cheers, aquele Bar e A Balada de Hill Street, e que não conseguem acompanhar tudo. Mas lá está - uma pessoa tem que escolher prioridades na vida. Se eles sentem que não conseguem acompanhar tudo, talvez seja pelo avançar da idade, e pelo aflorar de outras prioridades. Nada é imutável. E talvez seja hora de passar o testemunho.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Surpresa inesperada

Numa edição velha da revista Tabu, leio uma breve entrevista a Pacheco Pereira, em que ele se confessa admirador de jogos de computador, ao estilo de Red Alert e Civilization.

domingo, 24 de julho de 2011

Citando de novo Pedro Mexia

Estou a ler um livro dele com passagens dos blogs em que escreveu. Esta afirmação considero particularmente iluminada:

Os adolescentes ameaçam que se suicidam. Os "adultos" ameaçam que fecham o blogue.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Nas palavras de Pedro Mexia (e se me dissessem há 3 anos que eu citaria Pedro Mexia um dia, eu diria que estavam delirantes):

Ética Bloguista - Escrever como se ninguém lesse. Escrever sabendo que alguém sempre lê.

domingo, 10 de julho de 2011

O melhor do humor britânico #4


Uma coisa que eu adorava na série Big Train era o facto de uma pessoa poder chegar tarde à festa, e ainda assim usufruí-la em grande intensidade. Ou seja, uma pessoa não precisava de ver a série desde o episódio 1 para apanhar todas as catchphrases e quirks das personagens, coisa que acontece com demasiada frequência nas sitcoms americanas.

Este é um exemplo paradigmático do génio único desta série - a cena dos montadores incompetentes - que só teve mais um sketch para além deste, mas que não deixa de ser absolutamente de mijar a rir.

O melhor do humor britânico #3


O perigo de não se ter opiniões próprias... por vezes dá nisto. Hilariante e inenarrável ao mesmo tempo.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

O melhor do humor britânico #2


O antídoto antidepressivo ideal é sem sombra de dúvida a série Big Train, que tem alguns dos seus sketches mais memoráveis no YouTube, como este, em que decorre um duelo de "bailarinas" ao som de Prokofiev.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

O melhor do humor britânico #1


Um sketch hilariante da série Big Train, acerca de uma figura sexy que faz voltar cabeças.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Uma entrevista a um grande mister


O meu amigo Victor Hugo, que para azar de todos nós não é muito dado a estas lides de blogs, tem carregado algumas preciosidades que tem lá por casa para o YouTube, como é o caso desta entrevista de Herman José a Christopher Lee numa edição do Parabéns do ano de 1996, que na altura não tive oportunidade de ver.

A entrevista não é brilhante. Herman não parece suficientemente preparado para ela, e para alguém que se diz fã de Lee, não sabe alguns factos essenciais (como o facto dele ser primo de Ian Fleming). Além disso, Herman deixa muitas vezes o seu ego ultrainflamado vir ao de cima, como na parte em que começa a competir com Lee a ver quem sabe falar mais línguas, rasando mesmo a má educação; e a conversa alonga-se um bocado demais em obsessões pessoais do humorista, como Hitler.

Os excertos escolhidos também não são os melhores - tirando The Man With The Golden Gun, não me parece que Airport 77 e o Gremlins sejam propriamente a melhores demonstrações da mestria do actor.

Não obstante, neste valioso documento videográfico temos a oportunidade de reconfirmar o saber estar, a humildade e a sabedoria de Christopher Lee, de ver o que o faz um grande senhor do nosso tempo e de todos os tempos, aquele tipo raríssimo de velhos com quem queremos estar a ouvir episódios e histórias, durante horas a fio. A história que ele conta sobre Boris Karloff é uma autêntica lição de vida, e um conselho máximo para qualquer que seja a via profissional que escolhamos.

De destaque ainda é a duração da entrevista - cerca de 45 minutos - algo inimaginável nos tempos de hoje em televisão, em que se está sempre a cortar a palavra ao convidado com observações parolas ou interrupções surreais.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Le Rayon Vert

Le Rayon Vert, realizado por Eric Rohmer em 1986, é um filme muito interessante de se ver, principalmente por pessoas como eu, que têm vindo a sofrer episódios depressivos/solidão ao longo da vida.
Tal como a protagonista, eu próprio tenho estado perdido, estando com pessoas só por estar, fazendo coisas e trabalhos de que não gosto. Mas o que eu não tenho visto é que o maior prejudicado sou eu, e que só temos uma vida para viver, como tal mais vale a pena que ela seja vivida antes de chegar a nossa hora.

Tal como a protagonista, devo começar a aprender que nada acontece sem um bocado de esforço da nossa parte, e que se queremos que a vida ande para a frente não podemos estar sempre à espera que venham ter connosco - é necessário mexermo-nos.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

A bela da calcinha boca-de-sino

Não consigo entender aquele pessoal que tem tv cabo e passa a vida a lamuriar-se, dizendo que não dá nada de jeito em 40 canais. Ora, dá todos os dias por volta das 21h30 na Rtp Memória uma série mítica venerada pela geração anterior à minha, que eu não conhecia - trata-se de Espaço: 1999.

Ora a série é do bom ano de 1975 e mostra a maneira como eles pensavam que o mundo ia ser em 1999, com a velocidade que os avanços científicos e espaciais estavam então a ter.

O tempo veio provar-nos que as coisas não avançaram assim tanto (pelo menos no ramo espacial), mas isso não nos impede de usufruirmos as maravilhas desta fantástica série. Ora temos Martin Landau e Barbara Bain, dois pros saídos da Mission Impossible; temos fantásticos argumentos que colocam dilemas morais/éticos às personagens; temos naves espaciais que parecem brinquedos é verdade, mas que na altura eram o topo em efeitos, temos carecas que deixavam crescer o cabelo atrás (ver foto em cima), e temos a bela da calça boca-de-sino!

Não há nada como os anos 70!

sexta-feira, 3 de junho de 2011


Amélie só pode ser um dos meus filmes favoritos, pois tenho-me cruzado diversas vezes com ele no passar dos anos, e de de todas as vezes que o vi, tive sempre respostas emocionais fortes. E diferentes. Se à primeira vez, deixei-me encantar pela sua heroína cândida e pela história romântica, cheia de humor e de joie de vivre; nas vezes que vi a seguir há sempre alguma coisa nova que me prende a atenção. Hoje, quando o revi com um pequeno grupo, constatei a abrangência que o Cinema pode ter, quando é belo. Quando o Cinema é grande e quando é feito com alma, não há fronteiras entre as pessoas, e pode ser apreciado por toda a gente no mundo. Quando a maior parte das pessoas se identificam com Amélie, é sinal que ainda há uma réstea de esperança para a Humanidade, e que as pessoas ainda acreditam que podem alterar a vida dos outros, para melhor. E nós podemos mudar o mundo para melhor. Aos bocadinhos, mas podemos.

terça-feira, 31 de maio de 2011


Para quem ainda tivesse algumas dúvidas do mentecaptismo do jornalismo nacional, basta dar uma vista de olhos nos noticiários dos últimos dias - parece que, depois de semanas a fio com a febre dos idosos-abandonados-encontrados-mortos-nos-apartamentos, chegou agora a moda dos adolescentes-delinquentes-que-se-espancam-filmados-no-telemóvel.

E parece que agora (o choque, o horror, meu Deus!) os adolescentes são cada vez mais violentos, e que antigamente "é que havia respeito". Enfim, não há nada como um bocadinho de jornalismo acéfalo para nos apercebermos do quanto os noticiários estão empenhados em tentar desviar-nos a atenção daquilo que verdadeiramente interessa: por exemplo, o governo que se segue e que ainda nos vai tirar mais do bolso.

domingo, 29 de maio de 2011

Matar ou não matar


Come and See (Idi i smotri) é talvez o filme mais devastador que vi na vida. Narração apocalíptica sobre os horrores da frente leste na Segunda Guerra Mundial, o filme parece estar a afirmar algo, quando o final pára tudo e nos faz repensar o que vimos para trás.

Porque a História não pode ser esquecida foram feitos filmes como este. Um dos maiores ensaios de sempre sobre o Mal.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Só devem ver novelas da TVI, com certeza

Dois concorrentes consecutivos no Quem Quer Ser Milionário, um homem e uma mulher, não sabem a resposta à pergunta "Qual é o actor que entrou nos filmes Tudo Bons Rapazes e O Cabo do Medo?"

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Você é um cinéfilo snob?


Tou a ler o Dicionário de Cinema para Snobs e, à semelhança do Guia Terapêutico de Cinema, é uma leitura lúdica, inteligente, e plena de tiradas hilariantes e ousadas como "L'Atalante é desesperadamente aborrecido" ou "Howard Hawks não tem qualquer marca de autor".

Eu próprio já fui um cinéfilo snob, e revejo-me bastante naquela caracterização satírica dos cinéfilos exigentes, que não poucas vezes têm um feitio insuportável, a rasar a misantropia. Eu por acaso, devo ter sido dos poucos cinéfilos snob simpáticos...

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Ouvi-las a estalar, crac, crac

Tenho o corpo cheio de borbulhas por causa de pulgas que teimam em não morrer. Já meti Dum Dum no quarto todo. Têm algumas recomendações em como caçá-las? E o que meter no corpo para aliviar?

sábado, 14 de maio de 2011

Eartha Kitt



Anteontem, na Caderneta de Cromos da Rádio Comercial, Nuno Markl fez uma emissão hilariante em que questionou o porquê de algumas velhas estrelas consagradas costumarem omitir a fase dos anos 80 em retrospectivas da carreira. Vendo os excessos de Eartha Kitt nessa década, é fácil de ver o porquê dessa omissão.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Confesso que me faz raiva o estilo de pessoas que comentam esta notícia. O Último a Sair é uma sátira frontal ao telelixo televisivo, sendo interpretado por Bruno Nogueira, Rui Unas, Luciana Abreu como se fosse for real.

Só isso já é de louvar, numa sociedade apática que papa tudo o que aparece na tv, como tal intriga-me este tipo de gente que começa a bradar aos céus "Andam a brincar com o meu dinheiro" e coisas do género. Se calhar, preferiam ver o seu rico dinheiro gasto em pérolas televisivas como o Peso Pesado ou programa da tribo na TVI. Tenham vergonha na cara, por amor da santa!

domingo, 8 de maio de 2011

1001 filmes para ver antes de morrer é muito filme...


No entanto, devagar se vai ao longe. Da lista de escolhas do calhamaço que preenche largas estantes da Fnac, consegui ver umas boas centenas com o passar dos anos, inclusivé filmes que pouca gente viu... só mesmo cinematecos como eu.

Dêem uma vista de olhos na lista e parem de se queixar que não têm nada para fazer. Vejam aquilo que ainda não viram e façam o favor de serem felizes.

sábado, 7 de maio de 2011

Filmes deprimentes

Mas agora a sério, há filmes na lista que são simplesmente demasiado deprimentes para se conseguir voltar a vê-los. Luz de Inverno, ainda vá, é um filme magistralmente filmado apesar da aridez interior das personagens, agora Dancer in the Dark, para além de miserável é genuinamente mau.

E os filmes de Haneke não são decididamente recomendáveis a quem teve uma semana negra - corre-se o risco de ver gente a sair à rua com caçadeiras.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Antídoto para uma época em que só se fala de crise

É ler este magnífico texto escrito pela Inês Pedrosa, de uma edição do Expresso de Fevereiro, mas com que só agora tive oportunidade de me cruzar. Magnífico por ser uma autêntica voz no deserto de ideias em que vivemos, em que o jornalismo insiste em anunciar que estamos à beira da aniquilação (mas que é sempre adiada para o dia seguinte...).


Programa para um ano de crise

A conversa da angústia é velha e mata os novos.

Na Sociedade Filarmónica Alunos de Apolo, no bairro de Campo de Ourique, em Lisboa, mulheres e homens das mais variadas idades encontram-se ao cair da noite para aprender a dançar. As aulas, excelentes, custam apenas um euro por dia, para quem tenha a persistência de rodopiar diariamente e queira aprender uma dança diferente em cada mês: jive, valsa inglesa, valsa vienense, rumba, samba, tango, cha-cha-cha, paso doble, slow fox e quick step.

Quando chegam os alunos da primeira hora, saem os dançarinos das matinés dançantes que ali existem todas as tardes, das três às sete - gente que se reformou do trabalho mas não da alegria de viver. Há mais mulheres do que homens com vontade de aprender a dançar. Pelo menos nos Alunos de Apolo. Mas nunca falta par, porque há um valoroso conjunto de homens dos níveis mais elevados que se disponibiliza a aparecer pelas aulas dos principiantes para se deixar pisar até que as novatas consigam fixar os passos.

Ali, naquela hora, ninguém quer demonstrar nada, nem chegar a lado algum - não há egos lustrosos nem feitos imponentes, apenas ritmos. Enquanto os professores corrigem cada passo em falso e cada movimento trôpego, os parceiros sapientes segredam às tropeçantes: "deixe-se levar pela música que o resto vem depois". O resto virá depois, sim, desde que saibamos escutar a música, entrar no tempo.

A crise que vivemos resulta do oposto desta atitude: querermos acelerar o tempo, dominar a música, abafá-la, tomá-la toda para nós. Essa é uma das coisas que se aprendem num filme que só aparentemente é sobre dança - "Cisne Negro", candidato a mais Óscares do que os que mereceria, se tomasse alguma distância sobre a loucura da perfeição em que se compromete.

A competição desenfreada conduziu o mundo ao impasse em que estamos hoje. É tempo de percebermos que o remédio está na antítese do veneno - pararmos de correr e encontrarmos tempo para, simplesmente, dançar. A conversa da angústia sobre o futuro é velha e mata as novas gerações. Há trinta anos o telemóvel, a Internet e as redes sociais que entretanto criaram empresas e fortunas eram impensáveis - por conseguinte, que valor têm os augúrios de desgraça para os nossos filhos e netos? A nova geração precisa desesperadamente de incentivo - e sobretudo calma.

O direito ao sonho parece arredado da cartilha dos mais novos, tanta é a ansiedade dos pais sobre o seu sucesso futuro. Einstein chumbou a Humanidades na entrada para a Universidade e Bill Gates abandonou o curso no 3º ano para se dedicar aos computadores. Estudar é importante, desde que se tenha paixão por aquilo que se estuda. Conheço jovens que estiolam a estudar Gestão quando gostam de Artes, porque têm medo de não poder sustentar-se. E sei que ninguém pode ser um bom gestor se não tiver amor pela gestão. Sei que a felicidade começa sempre pelo amor.

Não me atreveria a dizer que sei mais nada - mas quando se teve a sorte de aprender na infância que é importante ter sonhos e lutar para os tornar realidade, sabe-se isto. Essa sorte é hoje interditada aos meninos que são obrigados a aprender chinês ou a correr de explicação em explicação para serem os melhores da turma, os mais hábeis sobreviventes, os mais competitivos.

A crise fundamental é a de ideias: os sistemas económicos tradicionais estoiraram, e não se adivinha ainda o que poderá vir substituí-los. Seria mais fácil adivinhar se tivéssemos tempo para pensar. Tempo livre - para ler, viver, e sobretudo pensar. Deveríamos fazer da filosofia o centro dos currículos escolares, desde o primeiro ano de ensino - em vez de fazermos precisamente o contrário, como calamitosamente temos feito.

Os jardins são gratuitos. Os museus, aos domingos, também. Como são gratuitas as bibliotecas - e há-as hoje pelo país inteiro, disponibilizando, além de livros e revistas, músicas e filmes. Um bilhete para os fabulosos filmes que a Cinemateca exibe custa menos de metade de um bilhete de cinema normal. Quando se passa uma manhã de sol, mesmo no Inverno, lendo estiradamente na relva, o cérebro acende-se e a alegria renasce.

A pouco e pouco, perde-se aquele instinto de frustração que nos leva, tantas vezes, a desrespeitar os outros - utilizando-os, fustigando-os, ou tentando frustemente caçar-lhes o lugar, numa fila dos Correios ou numa qualquer empresa. O mais urgente programa anticrise parece-me esse: gozar cada dia devagar, com o mínimo de possível de custos. E pensar como quem dança, sem olhar para o par do lado nem pretender mais do que o prazer de rodopiar ao som da música.


Nota: Inês Pedrosa escreve de acordo com a antiga ortografia

Texto publicado na revista Única de 12 de fevereiro de 2011

quarta-feira, 4 de maio de 2011

World Press Cartoon em Sintra



Admiro pessoas que são capazes de desenhar caricaturas. Admiro-as tanto como aquelas pessoas que fazem grandes filmes, ou compõem grandes músicas, pois é preciso ter um talento do camandro para, em meia dúzia de rabiscos, parodiar a política, a corrupção ou até mesmo figuras públicas conhecidas, de forma simultaneamente divertida e inteligente.

Não deixem de visitar a exposição no Olga Cadaval, em Sintra.

sábado, 30 de abril de 2011

Carpe Diem


Não me lembrava o quão bom era O Clube dos Poetas Mortos. Quando o vi há uns anos atrás, estava demasiado embrenhado na minha realidade e nos meus problemas pessoais para conseguir estabelecer um ponto de identificação com os estudantes daquele rígido liceu de New England.

Depois, anos tolos de lavagem cerebral com filmes intelectuais, deixaram-me amorfo e insensível a filmes com alma.

Hoje reencontrei-me com este filme que havia esquecido grande parte, permitindo-me reconstatar a importância de o ver hoje, em 2011. Este é o tipo de filme que diz respeito a todas gerações, quer as de hoje, quer as de 1989 (o ano de estreia do filme), quer as da década de 50, quer as do século XIX.

O que o filme nos transmite é uma mensagem intemporal, que não é simplesmente para nos pormos em cima das carteiras de sala de aula, o que o filme nos quer alertar é que não devemos deixar-nos subjugar pelo status quo - que devemos sempre ter uma vontade própria, não seguindo todos os outros, caso contrário tornamo-nos mais um na carneirada, perpetuando um sistema antigo que tanto beneficia a quem nos governa.

Viver o momento. Carpe diem. Seize the day - como diz Robin Williams.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Breve vislumbre do futuro


Estranhamente, o melhor filme do 25 de Abril que passou na tv acabou por não abordar directamente a revolução e nem sequer ser português - foi A Turma, que deu esta noite, à 1 hora da manhã, na RTP 1 (mais uma vez, senhores do "serviço público", obrigado pelas belíssimas horas a que dão os bons filmes!), filme que eu me arrependo de não ter ido ver ao cinema.

Aqui, temos um retrato fiel do que está a passar nas escolas francesas suburbanas, em que autênticas bombas relógio estão a dar os primeiros sinais de violência, após décadas de políticas irresponsáveis na Europa.

Portugal não foge à regra, no meu tempo testemunhei situações bastante desagradáveis, e que têm vindo a agudizar-se com o passar do tempo. E negar isso é negar a evidência.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Variante

A Visão desta semana deve ter a primeira capa positiva da década: Como Portugal ultrapassou crises anteriores, no passado.

E ali vêm de facto, verdadeiras crises, bem mais graves do que esta - a pesta negra, o domínio espanhol, a guerra civil, etc.

Nunca é demais relembrar a própria História a um povo amnésico, sedado em telenovela e noticiários.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Revelação

Dizem-me que o realizador favorito de Álvaro Cunhal era Hitchcock. Fico surpreso, pois não me admiraria muito se fosse Eisenstein, Buñuel, ou até (à pala de ter sido expulso dos EUA) Chaplin; agora um realizador tão burguês como Hitchcock é difícil encontrar, sendo extraordinário que fosse da preferência do mítico líder do PCP.

domingo, 17 de abril de 2011

Breve desabafo

Até quando teremos que levar com a canção Chamar a Música a ser cantada por fedelhos? Tá bem que a letra é bonita, mas já deu tudo o que tinha a dar quando foi cantada no Festival.

Uma Canção para Ti é seguramente o pior programa de tv de todos os tempos. E com o júri mais mentiroso da face da terra.

sábado, 16 de abril de 2011

E o tema quente do momento é...


A entrevista de Nuno Artur Silva a João Botelho, num canal do cabo. Mesmo apesar de Botelho ser algo brusco, o apresentador meteu-se à mão de semear.

domingo, 3 de abril de 2011

Mais vale tarde do que nunca



Hoje tive algum tempo livre, e resolvi ver 2 filmes que já andava há algum tempo para ver: Billy Elliott (2000) e O Guru do Sexo (2002).

O primeiro lida com um miúdo que quer fazer ballet numa Inglaterra de Newcastle conservadora, é um musical inesperado sobre ultrapassar osbstáculos face à adversidade.

O segundo, embora mais leve e aparentemente inócuo, trata de um indiano que emigra para os EUA, sonhando tornar-se cantor ou actor. O problema é que os americanos verão nele um guru de algo que ele nem está muito à vontade. O choque cultural e os gags são desconcertantes, as actrizes são umas beldades talentosas (Heather Graham e Marisa Tomei), e a sátira à indústria da auto-ajuda e aos gurus com aura "divina" é delirante.

Dois filmes recomendadíssimos.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

O choque... o horror...

Na edição de hoje da Caderneta de Cromos, Nuno Markl revelou algumas das figuras mais populares da televisão do "bom" ano de 1986, segundo uma Tv Guia da altura.

A série mais votada pelo público é... Fama.
O apresentador/locutor mais votado é... Carlos Cruz.

Sonhos

Esta noite sonhei com doppelgangers, isto é com duplos, que eu matava, mas depois apareciam mais nem uma cabeça de medusa. Sonhei ainda com duplos de raparigas que vinham num autocarro. Sonhei também que eu ia num monocarril, e ia apanhando objectos que ia encontrando, como óculos de sol.

Na noite de ontem, sonhei que ia muito atrasado para uma peça de teatro, em que era actor secundário, e as pessoas estavam fartas de esperar por mim. Quando eu chegava já era demasiado tarde, pois já tinham arranjado um substituto para mim.
Esta peça de teatro era encenada por um antigo professor meu.

sexta-feira, 25 de março de 2011

A arte de representar (II)


Ainda acerca de Liz Taylor, aqui vai uma cena que devia ser estudada por todos os aspirantes a actores e actrizes que povoam o nosso universo televisivo nacional, habitués em morangadas, e em ficção inexpressiva.

Taylor dá uma lição de representação e tem um papel de uma vida, como a mulher ordinária de meia idade, Martha, cujo prato do dia é jogar ao gato e ao rato e às humilhações com o seu marido, George, interpretado por Richard Burton.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Tchaikovsky, Força e Paixão


Esta é apenas uma pequena demonstração do porquê Tchaikovsky ser um dos meus compositores favoritos de todos os tempos.

domingo, 20 de março de 2011

25 anos de Chernobyl

Vi agora a reportagem da Sic. Passado um quarto de século, crianças que nasceram anos depois do acidente, estão doentes para a vida inteira, devido às radiações.

Agora o Japão, um país líndissimo, está ameaçado pela destruição.

Face a estes eventos, só me ocorre sublinhar que o homem pode ser o maior inimigo dele mesmo. E, devido à sua ganância, é capaz de hipotecar o futuro das gerações seguintes.

quinta-feira, 17 de março de 2011



Hoje deixou-nos um grande actor secundário, um dos meus favoritos de sempre - Michael Gough - que a malta mais nova conhece como o imprescindível mordomo de Bruce Wayne, Alfred, nos filmes de Batman até 1997.

Gough tinha uma carreira vastíssima em cinema e tv, e era uma daquelas caras essenciais a que nos habituámos a ver em grandes filmes britânicos, regra geral fazendo de snob vácuo, ou até de vilão. Era ainda possuidor de uma bela voz.

quarta-feira, 16 de março de 2011


- Romeiro! Romeiro!... Quem és tu?

- Ninguém.


in Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett

Esta deve ser provavelmente a resposta mais aterradora da ficção portuguesa. O facto de alguém voltar dos mortos, alguém não desejado, favorece a uma resposta de negação da própria existência. O romeiro é uma não entidade, alguém que sem pertencer ao domínio dos vivos, também não faz parte dos mortos. A negação de identidade provoca um estranho limbo existencial, algo que já me afectou muito, ao longo da vida, quando por vezes me perguntavam quem era eu, à falta de melhor resposta, respondia exactamente o mesmo - ninguém.

terça-feira, 15 de março de 2011

No começo deste ano, escrevi aqui no blog que acredito que 2011 vai ter que ser o ano 0 para Portugal, ou isto endireitava ou então vai tudo pelo cano abaixo.

Aparentemente, continuava a haver muita estupidez no ar, mas voltei a ter esperança quando os Homens da Luta venceram o festival e houve aquele bonito momento histórico que foi a manifestação do dia 12.

Ontem, o primeiro ministro fez uma declaração ao país à hora do jantar, anunciando uma crise política que se avizinhava há muito tempo. Os telejornais diariamente põem em causa o governo, mostrando mais e mais o PSD. Os dados estão lançados. Mais dia menos dia isto vai mudar de novo para os laranjas.

Mas a estupidez continua a ser assim tanta? Será que os portugueses só sabem votar em dois partidos?

quinta-feira, 10 de março de 2011

Este é um texto interessante do Pedro Borges, director da Midas, que serve para desmisticar algumas das ideias feitas de algumas pessoas em torno do Cinema Português.

Só há um ponto em que eu não concordo com o escriba - que o Cinema Português é muito mau, o que não acho. É muito mal divulgado é verdade, e raras vezes conseguimos entrar no mercado exterior, mas já vi alguns filmes brilhantes feitos no nosso país. Pena é que a maior parte sejam curtas em festivais, cujos realizadores nunca mais voltei a ouvir falar.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Da incapacidade dos portugueses se olharem ao espelho

As forças da reacção começam a pronunciar-se aqui e aqui. E tudo isto, só por causa de terem "ousado" gozar com essa vaca sagrada, essa autêntica instituição intocável que era o Festival da Canção.

Ora, como o passar do tempo nos tem mostrado, as coisas que nos eram mais sagradas acabam por se descobrir serem as nossas maiores inimigas para progredirmos.

E aqui eu terei de ficar inevitavelmente do lado dos mais jovens, daqueles que foram enganados. Desculpem, mas tem que ser.

O rosto que é negado

Jel dizia agora no Jornal da SIC que há um Zeca Afonso e um Marcelo Rebelo de Sousa, isto é, um revolucionário e um reaccionário dentro de cada um de nós. Compete-nos a nós escolher qual deles deixar vir ao de cima.

E ele tem muita razão. Os Homens da Luta satirizam o povo português, com o que há de melhor (protesto, igualdade) com o que há de pior e contraditório (luxos escondidos, menosprezo pela pobreza). E é essa dualidade que incomoda aos portugueses que se manifestam contra eles terem ganho o festival. O rosto da verdade dói.

domingo, 6 de março de 2011

Homenagem tardia a um Mestre

Por aqui, lê-se livros que uma pessoa ainda não havia tido oportunidade de ler com atenção. Como os catálogos massivos dedicados ao cinema Musical, editados pela Cinemateca nos idos oitentas.

E foi uma leitura bem melhor do que esperava. Pode não estar actualizado, mas que importa? Não houveram assim tantos musicais desde então e, para além disso, temos ali oportunidade de redescobrir a escrita de João Bénard da Costa, e partilhar alguns dos seus gostos cinéfilos e obsessões pessoais.

Hoje há gente a escrever bem sobre filmes, mas nunca mais houve ninguém a escrever sobre Cinema e sobre o amor aos filmes como Bénard o fazia. Na maioria da escrita cinéfila actual há uma distanciação em relação ao objecto que chega a ser alienante, Bénard não tinha pejo em fazer de cada filme que amava ou de cada actriz fetiche sua uma bandeira pessoal, interligando os seus (bons) gostos e referências de forma simultaneamente erudita e divertida.

Foi graças a ele que descobri que o amor pelo Cinema podia ser uma coisa lúdica e ao mesmo tempo ser levada a sério, comparando com artes mais valorizadas como a pintura e a literatura. E devo dizer que foi uma honra ter trabalhado sob a direcção dele entre 2004 e 2006.

Os Homens da Luta ganharam o festival da canção!

Fartos de ver as suas músicas a serem corridas da Eurovisão com uma meia dúzia de ridículos pontos, os portugueses pela primeira vez em muitos anos fizeram algo de inteligente - votaram numa música a gozar com as fuças dos júris, em que se apela à luta.

Quando se soube a decisão, houve assobios e apupos no Teatro Camões, e o público começou a abandonar a sala, enquanto a canção era interpretada uma última vez. Mas o que essa gente conservadora ligada às tradições não compreendeu, foi que isto não vai lá com canções bonitinhas.

sábado, 5 de março de 2011

A culpa é do Governo?

A blogosfera cinéfila está numa pobreza franciscana de ideias e novidades, como tal voltei-me para este site, que tem um artigo interessante traçando paralelos entre o filme de ficção científica Metropolis (do ano de 1927, o que espantará muita gente), e a sociedade actual em que se idolatram Madonnas e Ladys Cacas e o caralho.

Querem uma prova maior de que estamos a ser controlados que nem carneiros?

quarta-feira, 2 de março de 2011

Sonhos

Esta noite sonhei que estava num espécie de floresta, havia uma rapariga morena intrigante que eu amava mas que me enganava. Vinha um helicóptero buscar-me. Havia um inimigo que eu receava, mas com que acabava por fazer as pazes num terreno cheio de neve. Junto ao terreno encontrava-se um comboio onde fazia uma longa viagem, em que conhecia muitos dos passageiros.
No sonho, também havia uma situação em que adquiria uma casa nova, mas demasiado pequena e a desconjuntar-se - a casa de banho parecia estar a desfazer-se cada vez que lá entrava.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

No surprises here

Houve alguém que afirmou uma vez que as únicas coisas certas nesta vida, são a morte e os impostos. Eu acrescentaria mais outra certeza, pelo menos anual - uma má cobertura sobre a cerimónia dos Óscares, feita pelos burgessos nos telejornais. É fatal como o destino.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Double bill simultânea

Ontem estavam a dar dois filmes memoráveis de duas épocas completamente diferentes - Cleópatra na RTP Memória, que já havia visto, e Monster no Hollywood, que apenas conhecia o final.
O meu serão foi feito a zappar entre duas fantásticas actrizes - Elizabeth Taylor no auge da sua beleza, e Charlize Theron, no auge da sua fealdade, caracterizada para parecer uma serial killer famosa.
Se Cleópatra foi o filme que levou a Fox à ruína e precipitou o fim do sistema de estúdios, o tempo serviu para amenizar um bocado a má fama que tinha. Visto hoje, Cleópatra é um fascinante documento histórico (e que toma algumas liberdades históricas!), onde vemos alguns dos maiores actores que pisaram a face da terra, tanto americanos como ingleses - Rex Harrison, Richard Burton, Carol O' Connor, Roddy McDowall, Martin Landau, Hume Cronyn.
Monster é um aterrador filme que nos leva a identificar-nos com uma serial killer, algo que jamais pensaríamos ser possível. Charlize recebeu merecidamente a estatueta dourada.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Sou declaradamente contra o Pós-Moderno. É a minha némesis constante, com que tenho que me defrontar diariamente. Sempre que me tentam impingir a ética do mundo em que vivemos, eu argumento de volta apresentando provas das maravilhas de épocas distantes, reunindo uma ética minha, que eu considero universal e intemporal.

É por isso que não posso com estas notícias diárias em torno do gladiador favorito nacional.

Ler notícias sobre Ronaldo são desmotivantes para a auto-estima, são um crime contra o bem estar do português médio, é uma ênfase diária constante da imprensa em como nós somos gentalha comparados com estes "deuses", em como nos falta sempre alguma coisa para sermos fantásticos.

Quando leio esta dita imprensa só me lembro da música que tava agora a ouvir na rádio - I wish I was special/ You're so fuckin' special. Desculpem mas entre escolher estar do lado de privilegiados que não o merecem, e homens comuns, estarei sempre de unhas e dentes a apoiar os segundos.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Há lugar para todos


Só hoje tive oportunidade de ver A Bela e o Paparazzo e foi uma agradável surpresa. Os filmes anteriores que havia visto de APV haviam-me deixado com sentimentos mistos - uns gostei (Call Girl, Imortais) outros odiei (Aqui D'El Rei, Jaime) - mas este é o filme que faltava no cinema português, uma comédia romântica com pano de fundo no mundo das celebridades com que os portugueses deliram.

As opiniões dele em relação ao nosso cinema nem sempre são felizes, mas uma coisa não se pode negar ao ver este filme - o homem não tem baixado os braços.

Soraia Chaves representa bem e não precisa de mostrar muito o corpo, a ela são dadas as melhores linhas do filme; Nuno Markl é hilariante, e as personagens-tipo de Maria João Luís e Vírgilio Castelo rasam de forma acutilante a realidade do mundo cor-de-rosa.

Um filme aparentemente pipoca, mas feito com cabeça e (algo que falta em muito filmes nacionais) coração.

Como é possível?

Esta é uma prova indelével que a sociedade moderna falhou completamente.

sábado, 5 de fevereiro de 2011


Não existem muitos filmes como How Green Was My Valley. Estava agora a dar na RTP Memória, e aproveitei para rever, volvidos estes anos todos. E o tempo só serviu para para reconstatar o seu charme e nobreza intemporais. É um daqueles filmes que contêm lições de vida que não constam em cursos universitários. Ensina-nos esses valores essenciais de vida, e que há muito foram esquecidos na poeira do tempo, tais como a humildade, a nobreza de carácter, o sacrifício em nome de alguém que amamos, a amizade, e talvez mais importante do que tudo, o espírito de comunidade, algo completamente esvanecido nestes infernos pós-modernos que são os subúrbios.

Nunca até morrer esquecerei o jovem Huw, aquela família numerosa, a doce Angharad, e o sacríficio de Mr. Gruffyd. Como era verde o meu vale!

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011


Rever Pauline à la Plage fez-me recordar um outro filme em que também é retratada a atracção de adultos por teenagers sexys - American Beauty - de que gostei, mas sempre achei algo conservador, no que dizia respeito a essa paixão proibida.

Pauline à la Plage mostra-nos uma França não muito distante, na década de 80, em que uma adolescente se vê confrontada com a hipocrisia dos adultos, mas a abordagem do filme em termos de sexualidade, é descomplexada e sem rodeios.

Faz falta uma educação sexual assim em Portugal.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Tenho visto muita gente, cuja opinião respeito, a falarem mal de Paulo Coelho e a argumentarem que ele é um escritor demasiado comercial/superficial, etc. Talvez devido a essas influências, evitei livros do autor.

Pois bem, li O Diabo e a Senhorita Prym em dois dias, e há muito que um livro não me agarrava tanto. Posso não ser propriamente uma autoridade em literatura, mas uma coisa vos posso garantir - alguém que escreve uma parábola tão fascinante sobre o Bem e o Mal é tudo menos uma pessoa desinteressante ou superficial.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Na morte de Carlos Castro

Hoje de amanhã, ao acordar, sou prontamente informado que o cronista reputado Carlos Castro foi assassinado em Nova Iorque pelo seu jovem amante, aspirante a famoso modelo.

Este é um estilo de notícias que não costuma acontecer muito em Portugal. O nosso país é um sítio onde pais matam os filhos (o caso da Leonor qualquer coisa); onde filhos matam os pais (todos os meses há um caso); uma praia de corrupção e de intriga. Este é um estilo de crime que sucede mais nos EUA, onde o culto da fama é levado a dimensões extremas - volta e meia alguma celebridade aparece morta no chuveiro, ou assassinada, ou com uma embalagem de barbitúricos presa na mão (e depois descobre-se que a celebridade era, hélas, solitária).

Ao chegar uma situação destas ao jet 7 português, mesmo apesar do crime não se ter passado em nosso solo, convém questionar a cultura da fama que se tem instalado em Portugal, nestes últimos anos, que está habituada a ser idolatrada por muito pouco. Programas de fama proliferam na tv, dão-se falsas esperanças a jovens (o assassino era concorrente de um concurso de talentos da SIC), que sem horizontes nenhuns, se entregam a uma máquina canibal que é a televisão (quem fala em glamour é só mesmo gente desiquilibrada mental). Trocam o seu corpo e vendem a sua alma a troco de um bocado da luz da ribalta, e as revistas respondem com os seus flashes.

Desde que tenho feito visitas aquele mundo, há algumas coisas que me têm surpreendido pela positiva na televisão é verdade, mas também tenho observado um lado podre que está inerente a todo aquele verniz, lado esse que não tenho visto sequer insinuado pelas revistas cor-de-rosa. Está por fazer um filme ou uma série sobre esse lado podre. Quem tem coragem de o fazer?

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Esqueci-me de dizer uma coisa, anteontem tive pesadelos e sonhos, seguidos uns aos outros em ordem cronológica. Sonhei com celebridades, com a Casa dos Segredos, com a morte de pessoas próximas, e com parentes psicopatas com uma faca nas mãos. Acordei com suores frios.

Creio que descortino mais ou menos o significado no meio desta misturada.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

A Cinemateca este mês está bastante interessante, como se esperava. Ontem tive o privilégio de ver 100 minutos de curtas realizadas pelos Lumiére e amigos, e caramba aquilo é uma jornada ao passado. Nota-se ali um esforço por construir algumas narrativas com o novo instrumento - a câmara de filmar. Era o despontar de uma arte que ninguém dava dois tostões por ela, inclusivé os próprios inventores.

Este mês, se me quiserem encontrar, vou andar por lá.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Ontem à noite estava a dar uma reportagem na RTPN sobre os sem-abrigo, e a sua dura realidade.

A peça foi uma valente chapada na cara, que me fez sentir com vergonha na minha zona de conforto.

A certa altura, a jornalista pergunta em voz alta "Como é possível isto acontecer no Portugal de hoje?". Eu respondi mentalmente - Num país corrupto em que o que interessa é lixar o próximo, num país em que nada se faz, em que o que interessa é denegrir tudo e todos quando os outros viram as costas, num país em que o que interessa é saber as últimas fodas do Cristiano Ronaldo; qual é o espanto?

domingo, 2 de janeiro de 2011

Hoje, no segundo dia do ano 2011, aprendi uma valente lição - em última instância, apenas podemos contar connosco. Nem os familiares nem os amigos nos safarão.