sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

A vida


Tenho uma relação peculiar com certos filmes. Há alguns que à primeira vez adoro e depois revejo-os passado uns anos e constato que não eram assim tão bons. Há outros que começo por não gostar, mas quando os revejo em condições uns anos mais tarde, constato a sua grandeza. Tal é o caso de The Third Man, de Carol Reed. O filme, tal como o bom vinho, parece melhorar com os anos, e a cada revisão mais constato a sua genialidade em compor personagens adultas e os seus dilemas.

O personagem principal Holly Martins, que não é meu primo mas podia ser, debate-se com a ideia de denunciar o seu melhor amigo Harry Lime, contrabandista de penicilina, e responsável pela morte de dezenas de mulheres e crianças, à polícia. Pelo caminho, apaixona-se por Anna, a antiga namorada de Lime. Martins sabe o que é certo fazer, mas laços antigos ainda o prendem à fidelidade, e a repulsa de Anna por delatores é algo que ele não pode esquecer. Acaba por decidir ajudar a polícia a apanhá-lo.

No plano final, que talvez seja o mais pungente final de todos os tempos (e não me estou a esquecer de Casablanca), vemos Martins esperando pacientemente por Anna, disposto a apanhar qualquer espécie de migalhas que possam ter restado de amor, logo após o enterro de Lime. Mas Anna passa por ele e ignora-o.

E então constatei como o grande cinema é ao mesmo tempo a vida. Porque a vida nem sempre acaba com happy endings fáceis. Porque muitas vezes a vida pode ser inexplicavelmente tola e sem sentido.

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