sábado, 28 de dezembro de 2013

Os tais da vida

Quem me conhece, sabe que odeio fazer listas pela incapacidade de se manterem mais de um semana, pela impossibilidade de se ver tudo no mundo para se fazer listas como deve ser. De qualquer forma, aproveito esta quadra natalícia e o facto de ter improvisado uma à pressa para um mail que mandei, para a copiar e colar aqui:

Metropolis (Fritz Lang)
The 39 Steps (Hitchcock)
Gone with the Wind (Victor Fleming)
Citizen Kane (Welles)
Sullivan's Travels (Preston Struges)
Ivan o Terrível (Eisenstein)
Vertigo (Hitchcock)
Otto e Mezzo
Star Wars - The Empire Strikes Back
Blade Runner

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Sullivan's Travels

Quando muitas vezes me perguntam porque não gosto de ver comédias actuais, creio que a resposta nem sempre é claramente interpretada do outro lado. Penso que, até mais do que o western, a comédia em cinema é um género defunto, que empalidece ao lado do brilhantismo de Chaplin ou de Lubitsch. Não se correm riscos nenhuns hoje em dia nas comédias... ninguém consegue duplicar um plano final a insinuar um ménage à trois (Philadelphia Story) ou deixar um aperto comovido no nosso coração (Modern Times).

Bom, este paleio todo para dizer que revi hoje Sullivan's Travels, que da primeira vez tinha-me passado um bocado ao lado (em 2007 estava tão abananado que quase tudo me passou), e neste momento é a minha comédia favorita. Precisamente por ser tão sério o que se está ali a falar.

O filme narra a estória de um realizador de Hollywood que, farto de fazer comédias e coisas suaves, decide fazer um filme sério intitulado O Brother Where Art Thou?, sobre vidas de pobreza. É gozado pelos colegas, que o rebaixam dizendo que quem nunca passou por dificuldades não conseguirá fazer um filme sobre o tema. É o suficiente para Sullivan decidir fazer-se à estrada, com roupas de vagabundo e 10 cêntimos no bolso, para tentar saber como vive a outra fatia do povo. Escusado será dizer que o caminho não será fácil.

Sinto que já estou a escrever demasiado de novo. Se nunca viram Sullivan's Travels, por favor vejam-no.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Argo

Argo ganhou o Oscar de melhor filme este ano. Algo injustamente se o compararmos com os filmes que bateu na categoria, Amour e Django Unchained, mas a sua vitória diz muito (à semelhança do que as elevadas audiências da Casa dos Segredos dizem em Portugal) sobre a imagem que os americanos gostam de ter de si próprios. Uma espécie de salvadores de reféns, humildes, algo cool, e bem menos agressivos do que era Rambo nos anos 80.

O filme narra a estória de um salvamento de meia dúzia de americanos no Irão, na crise internacional dos reféns de finais dos anos 70/início dos 80, uma operação top secret organizada pela CIA, com o disfarce de uma equipa de filmagem a procurar locais de filmagem. Na fase inicial temos uma sátira à indústria de Hollywood (embora não tão feroz como poderia ter sido), mas o filme mete-se melhor em movimento nas suas cenas de thriller político.

Se Argo ganhou injustamente o Oscar de melhor filme? Sim, ganhou, disso não há dúvida, mas não é totalmente desprovido de méritos.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Cinema King RIP

Era uma morte anunciada já há muito tempo (mesmo antes de eu ir para Londres), com os crescentes alertas da degradação do espaço. No entanto, não vai deixar de me provocar muitas saudades pois foi uma sala que ainda frequentei diversas vezes, em festivais ocasionais ou em sessões normais, e era um sítio que eu gostava de ir fundamentalmente por ser um daqueles raros espaços de cinema em que uma pessoa não tem de atravessar corredores com 60 ou 70 lojas antes de chegar às bilheteiras.

Após o fecho do Quarteto, somando à falência do Londres, com esta notícia o Cinema em Portugal vai continuar de luto, e durante muito tempo...

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

The Valley of the Dolls

Andava há uma data de anos para ver The Valley of the Dolls, em grande parte pela presença de Sharon Tate, de quem sou fã, mas alguma circunstância me demovia sempre, talvez pelas péssimas críticas que o filme teve - Leonard Maltin dá-lhe 1 estrela, Ebert não mais que duas, e o filme é presença frequente em listas dos piores filmes de todos os tempos.

No entanto, ontem resolvi finalmente dar uma chance a este filme que tanta tinta fez correr nos anos 60, baseado no livro escandaloso semi-biográfico de Jacqueline Susann. E ainda bem que finalmente o fiz. O filme abre de uma forma muito literária com a protagonista Anne Welles (a atraente morena Barbara Parkins) em voz off falando num tom maduro acerca de sonhos desfeitos. Ela é acompanhada por uma bonita canção de Dionne Warwick. Eu pensei - caramba, nenhum filme que começa com a voz de Warwick pode ser assim tão mau!

Ela sai da terra natal para ir em busca de aventura e novas experiências em Nova Iorque antes de se compreter com um casamento. Emprega-se num escritório de advogados de vedetas de cinema e da Broadway, e rapidamente a sua vida começará a ficar agitada. Assistiremos também ao desenrolar da história das suas amigas Neely O' Hara (a intensa e acriançada Patty Duke)  e Jennifer North (a trágica Sharon Tate). Da sua ascensão e queda, dos meandros da fama, das aparências, das traições nos bastidores.

Fiquei agradavelmente surpreendido quando vi Susan Hayward como a estrela envelhecida Helen Lawson, e Lee Grant como a dura manager do irmão cantor.

Até posso entender porque o filme é tão detestado, pelo exagero e desiquilibrio de muitas cenas que têm falta de continuidade, mas não posso aceitá-lo como um dos piores de sempre. Aliás, apesar dos seus defeitos, creio que é um filme bastante definidor do zeitgeist dos anos 60. Basta olhar para as montagens coloridas da ascensão para a ribalta.

Se o devem ver? Depende do vosso interesse na época, no tema, ou nas actrizes. Pessoalmente, acho que faria falta ser mais visto nos dias de hoje.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Hardcore

Hardcore, realizado por Paul Schrader (que é mais conhecido pelo seu trabalho como argumentista) no ano de 1979, é um filme muito interessante que funciona plenamente a dois níveis - em primeiro, é uma espécie de continuação de Taxi Driver, com os mesmos ambientes e personagens diferentes, em segundo, é tudo aquilo que Taken com Liam Neeson deveria ter sido e não foi, desperdiçando as oportunidades com as infindáveis cenas de acção.

Em Hardcore assistimos ao genuíno terror de ver um familiar desaparecer do mapa sem explicações, e sem grandes oportunidades de dar tareia à la Charles Bronson nos raptores. Assistimos ao autêntico buraco negro, ao inferno dantesco em que o personagem conservador de George C. Scott tem que se infiltrar, se quiser ter uma remota chance de reencontrar a filha viva. Scott dá uma interpretação monumental, daquelas que nunca são nomeadas para Óscares, mas que são os verdadeiros alicerces do trabalho que admiramos no cinema americano.

Perturbante como muitos filmes de terror aspiram a ser mas não o conseguem, Hardcore é um filme para ser visto por quem não tem medo de olhar de frente algumas realidades mais sórdidas que a humanidade pode produzir quando liga uma câmara de filmar. Tão essencial hoje como em 1979.

domingo, 22 de setembro de 2013

(Más) Imitações de Hitchcock


Tesis, realizado em Espanha por Alejandro Amenábar no distante ano de 1996, não é necessariamente um mau filme, bem pelo contrário é melhor do que muito lixo que as distribuidoras nos tentam impingir nas salas de cinema. O problema é que o potencial do filme esgota-se logo após a promissora meia hora inicial, com as inócuas e tolas reviravoltas constantes.

Aliás, não é um filme mau, é mais um filme irritante. Irritante pois tenta ser Hitchcock sem o ser, a toda a hora, sem ter a classe e a subtileza do mestre. Faz lembrar um bocado De Palma quando tenta ser Hitchcock a toda a força, em Body Double, em Blow Out.

Há potencial imenso no filme, com o mundo universitário à mistura, o advento do VHS e das câmaras de filmar portáteis, creio que o filme é inadvertidamente melhor quando mostra ambientes e realidades desse mundo dos anos 90.

Como exercício de suspense, em pseudo-homenagem a Hitchcock, deixa muito a desejar.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

O que faz um bom vilão

Já Hitchcock dizia que um filme será melhor quanto melhor for o vilão, uma lição que foi devidamente assimilada pelos actores que apareceram posteriormente nesse tipo de papéis em filmes de James Bond.

Muitas vezes, há actores que até exageram e chegam a sobrepor-se ao protagonista, não deixando a cena respirar - é o chamado overacting.

Quem me conhece, sabe bem demais porque não sigo novelas. Não tem necessariamente a ver com overacting, porque isso existe em todo o lado. Não gosto de novelas porque são simplesmente demasiado básicas na sua ética (e na sua estética), os bons são todos muitos bons, os maus são podres até ao tutano. Parece quase que não existem áreas cinzentas, parece que os bons nunca pecaram e parece que os maus nunca fizeram uma boa acção na vida.

Ora vem esta conversa a propósito de Wall Street, que aproveitei para rever hoje, e que para além de reconstatar a importância do filme na altura e hoje em dia (apesar dos computadores, dos telefones tijolo), reapreciei o fantástico desempenho de Michael Douglas como Gordon Gekko, o implacável homem de negócios que não olha a meios para atingir os fins. Gordon é um verdadeiro filho da puta, mas é um filho da puta com o qual não podemos deixar de simpatizar um bocadinho - parece gostar de arte, da boa vida, e após muitas traições da parte dele, no final vemos quase uma centelha de humanidade quando se apercebe que também ele provou do seu próprio veneno.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Blackmail

Após descobrir há poucos dias um early Hitchcock que ainda não tinha visto, fiquei com o bichinho e deu-me saudades de rever Blackmail (1929), desta vez a versão sonora, ao contrário da última vez, que vi a versão muda.

A versão sonora é bem melhor do que imaginava, mesmo apesar de não ter muito sons, dando para ver claramente a sua génese; tem muitas utilizações interessantes do som, nomeadamente na música, sendo que as personagens passam muito tempo a assobiar e um personagem chave do filme canta enquanto está ao piano. Talvez o uso mais inovador do som advenha da repetição da palavra knife, várias vezes aos ouvidos da protagonista, quando ela vai para cortar pão (semelhanças com Sabotage).

Em Blackmail já está lá tudo - desde a heroína loira "inocente", o erotismo que transpira em muitas cenas, o assassinato e a culpa, e a perseguição final num local famoso (aqui o British Museum).


segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Murder!

Murder!, filmado no longínquo ano de 1930, mesmo apesar de não ser um grande filme, é muito interessante para admiradores do mestre Hitchcock, pois revela já muitos traços do engenho visual que ele iria posteriormente demonstrar.

Logo a abrir, na primeira cena, a do grito, em que vemos o travelling para a direita sobre as janelas da vizinhança prenuncia já Rear Window em 20 anos. Há realizadores que proclamam que toda a vida fizeram o mesmo filme uma e outra vez... vendo esta cena dá para entender porque o dizem.

Depois outros momentos brilhantes como os do júri do tribunal (influência em 12 Angry Men?), em que fazem uma lavagem cerebral para todos pensarem o mesmo; momentos de humor genuinamente hitchcockianos como o polícia a interrogar os actores sendo constantemente interrompido pois eles têm que entrar em palco; ou até algumas notas surrealistas que não devem ter sido pouco amadas por Luís Buñuel, como o coro de vozes em off a matraquear repetitivamente na cabeça do protagonista ou a carpete fofa que se afunda quando se pisa...

Recomendo (está na fnac a um excelente preço)

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Más memórias do ecrã

Nunca vos aconteceu não gostar de um filme e não saber exactamente explicar porquê na altura que acabam de o ver? Pois bem, The Blind Side ou Um Sonho Possível em português é um desses, e que só agora consegui entender o que me repudiou no filme.

Há dias, reparei que estava a dar na televisão em horário nobre, e mais uma vez houve ali alguma coisa que me incomodava profundamente, por debaixo de toda aquela leveza e de todo aquele optimismo de feel good movie baseado num "caso verídico".

E só hoje constatei o que era - o filme é de um racismo tremendo, um manifesto descarado sobre a superioridade dos brancos sobre os negros, e de que como os negros sem os brancos para os orientarem são uma carneirada perdida. O personagem negro, sobre quem o filme supostamente está a contar a estória, é totalmente secundarizado para ser dada luz sobre a rica família branca que o adopta, e do quão maravilhosos eles são por se terem sequer importado com ele.

Como Sandra Bullock foi nomeada e até ganhou o Oscar é uma das coisas mais revoltantes e reveladoras de sempre do que vai na cabeça de grande parte dos membros da Academia.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O que os realizadores pensam uns dos outros

Quem é que dizia que os realizadores eram todos amigos e formavam uma espécie de irmandade de paixões comuns? Alguns odeiam-se mesmo, e o veneno e o peso da competição abundam nos bastidores do meio pequeno da Sétima Arte (mesmo em Portugal).

Eis algumas reveladoras passagens que transcrevi do blog Cinema Notebook:

5. David Cronenberg sobre M. Night Shymalan:
"I hate that guy! Next question."

4. Francois Truffaut sobre Michelangelo Antonioni:
"Antonioni is the only important director I have nothing good to say about. He bores me; he’s so solemn and humorless."

3. Ingmar Bergman sobre Orson Welles:
"For me he’s just a hoax. It’s empty. It’s not interesting. It’s dead. Citizen Kane, which I have a copy of — is all the critics’ darling, always at the top of every poll taken, but I think it’s a total bore. Above all, the performances are worthless. The amount of respect that movie’s got is absolutely unbelievable."

2. Ingmar Bergman sobre Jean-Luc Godard:
"I’ve never gotten anything out of his movies. They have felt constructed, faux intellectual, and completely dead. Cinematographically uninteresting and infinitely boring. Godard is a fucking bore. He’s made his films for the critics."

1. Vincent Gallo sobre Sofia Coppola:
"Sofia Coppola likes any guy who has what she wants. If she wants to be a photographer she’ll fuck a photographer. If she wants to be a filmmaker, she’ll fuck a filmmaker. She’s a parasite just like her fat, pig father was."

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Como arruinar a vida dos seus filhos em 10 breves lições

Deveria ser o subtítulo de Splendor in the Grass, um dos filmes mais devastadores que se deve ter feito sobre o amor na adolescência e o crescimento. Esqueçam as comédias românticas de hoje em dia, os American Pies e merdas irrealistas que pululam nos ecrãs, que tratam os sentimentos como uma troca de camisola num jogo de futebol. Os verdadeiros sentimentos percorrem este filme intemporal.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Um óasis no meio do deserto

Este blog tem estado um bocado parado pelo facto do resto das pessoas também andarem e pensarem de forma algo indolente, à velocidade das temperaturas de calor que se vivem, como tal abstenho-me de dizer coisas que pouca utilidade/interesse têm.

Por sinal, numa área que no Verão também costuma mostrar zero de novidade - a Televisão - tem andado a passar alguma coisa de diferente e que marca uma clara diferença do que passa e de tudo o que passou. Trata-se do documentário dividido em alguns episódios intitulado Portugal, Um Retrato Social, que tem passado diariamente na rtp 2 por volta da hora do jantar. É verdade que é uma repetição, e que já tinha passado em 2007, mas há algo no contexto actual que o torna mais importante ver agora ou até rever.

Em 2007 eu andava simplesmente demasiado ocupado ou desinteressado do meu papel enquanto português para dar olhos a este tipo de programa, mesmo há uns dias atrás quando me cruzei fortuitamente com o mesmo num zapping, não me apeteceu ver mais do que 2 minutos, não sei se foi a voz algo solene de António Barreto que me fez afastar ou se simplesmente fiquei com a ideia errada do programa.

É verdade que passam muitas imagens de arquivo, do Portugal do antigamente, mas ao contrário do que eu pensava, nem sempre são num tom nostálgico, muitas vezes são até para mostrar o quanto melhorámos em relação há 50 ou há 40 anos.

É verdade que por vezes é impossível deixar de causar uma certa emoção nostálgica em alguns espectadores com mais idade, ainda para mais sendo essas mesmas imagens acompanhadas pela música evocativa e melancólica de Rodrigo Leão, mas o que se pretende não tem nada a ver com o pensamento empoeirado dos velhotes de que "antigamente é que era" e que "já não há valores". Nada disso. Quem vir as coisas nesse prisma não está a apanhar de todo os objectivos do documentário.

Portugal, Um Retrato Social é sim uma visão muito objectiva (de um pragmatismo até invulgar) das mudanças no nosso país nas últimas décadas, é um pouco quase à maneira do que imaginamos ser António Barreto - consciente das diferenças em relação a antes da ditadura, do que melhorou e do que piorou, grato pelo que de alguma forma progredimos, mas alerta em relação a aspectos em que os portugueses ficaram mais alienados do que quer dizer qualidade de vida.

Curiosamente, o documentário torna-se imperativo ver hoje em dia, no ano de 2013, pelo que mudámos em relação a 2007, quando o mesmo estreou, pela forma como as pessoas encaram hoje a política e os políticos, pela maneira como as condições de vida mudaram e infelizmente não para melhor.

sábado, 20 de julho de 2013

Hollywoodland - não tão mau quanto diziam

Um grandioso elenco secundário - Bob Hoskins, num sotaque americano irrepreensível, Diane Lane, profissional em qualquer papel, Adrien Brody como um protagonista fácil de nos identificarmos. E, por uma vez na vida, Ben Affleck adequado como canastrão fazendo de outro.

Adoro estórias destas, sobre a seedy Hollywood clássica, em que nem tudo era tão glamoroso quanto parecia.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Qualquer coisa de sexy

De Palma tem destas coisas - é capaz de fazer filmes histéricos e rebuscados, em que nem a raíz hitchcockiana que consegue salvar o filme (Obsession, Blow Out, Dressed to Kill), como é capaz de nos surpreender pela positiva com filmes que se podem comparar ao melhor que o mestre fez (Sisters, The Untouchables, The Black Dahlia). Passion, o último dele e actualmente nas salas de cinema, apraz-me dizer que pertence ao segundo grupo. É um exercício voraz no thriller erótico, no jogo de espelhos, e uma sátira velada ao poder da cona no mundo do trabalho.

Um filme implacável e imperdível. Se ainda não ficaram convencidos, leiam mais sobre o mesmo aqui e aqui.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Qualquer coisa de superficial

Ver filmes maus de vez em quando também é inspirador, na medida em que vemos o mal que foi feito e de que forma uma oportunidade perdida poderia ter sido melhorada.

Ora vem esta conversa a propósito de Mestres da Ilusão, que está em cartaz nos cinemas neste momento. Eu tinha plena noção que era um risco vê-lo, mas dado o extraordinário elenco tanto jovem como sénior, resolvi dar uma chance. Além disso, os filmes sobre ilusionismo são escassos, logo achei que seria bom ver alguma coisa de novo no grande ecrã.

Deve-se dizer que este não é bem um filme de ilusionismo, é uma espécie de heist movie, em que os mágicos roubam avultadas quantias a bancos e a gente rica para depois distribuir por gente que foi injustiçada, como tal são uma espécie de grupo Robin Hood ilusionista. As personagens parecem muito cool, vestindo do melhor, andando nos melhores carros, é fácil ver que o filme aspira a ser uma espécie de Ocean's Eleven.

Mas desde cedo a credibilidade é posta em causa com situações impossíveis, com a primeira cena do assalto ao banco francês, que é revelado como truque é verdade, mas que anteriormente vimos planos das ruas de Paris, ninguém pedindo desculpa por enganar o espectador. Quando, no segundo show, vemos a única ilusionista mulher (a expressiva e mamalhuda Isla Fisher) a entrar numa bola de sabão e a voar, resolvi desistir de procurar um sentido em tudo aquilo.

Mais uma vez relembro que o elenco é de primeira água - tanto os mais jovens Jesse Eisenberg, Melanie Laurent demonstram talento e à vontade a contracenarem com "monstros" sagrados como Michael Caine e Morgan Freeman - o problema é que as personagens que interpretam são unidimensionais, e pouco nos importamos com o que lhes possa acontecer de mal ou bem. São personagens que estão lá para cumprirem as suas personagens tipo - os ilusionistas sofisticados e cool, os pseudo-mentores corruptos, os investigadores esforçados e cínicos.

Quando acabou o filme, reflecti com o meu amigo se o filme não seria uma metáfora perfeita do cinema actual de Hollywood, com os seus diálogos rápidos, acção incoerente, e reviravoltas a toda a hora ao ponto de não conseguirmos descortinar quem é quem. Talvez o único mérito do filme seja precisamente esse, o de cristalizar o fogo de artifício que o público pipoqueiro com deficit de atenção, ansioso de sensações constantes, já não consegue viver privado.

sábado, 8 de junho de 2013

Cross of Iron


Realizado em 1977 pelo senhor Sam Peckinpah, e finalmente visto hoje após muitos anos de espera.

É grande, é um filme enorme apesar de ter pouco mais de 2 horas de duração. Misturando actores que poderiam facilmente destoar num filme passado no lado alemão - eu por exemplo, tremi quando vi os britânicos James Mason e David Warner como oficiais alemães - mas o filme está de tal forma bem dirigido que rapidamente aceitamos aquilo que está a acontecer como verdadeiro.

Aliás, no seu registo ultra-realista, o filme fez-me lembrar muito outro brilhante filme de guerra, Idi i Smotri (Vem e Vê).

segunda-feira, 3 de junho de 2013

O Passado e o Presente


Finalmente consegui ver este Sábado e foi uma agradável surpresa. Oliveira é uma espécie de Buñuel mais dócil, mas com um sentido de humor muito próprio. Quem gostou d' O Charme Discreto da Burguesia irá certamente apreciar este. Chamo a atenção para a esplêndida direcção de actores em que ele consegue nivelar os amadores com os profissionais.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Uma questão de moral

Insomnia é um daqueles filmes que inicialmente tudo aponta para que seja de uma maneira, mas que volvida meia hora há um acontecimento inesperado que muda completamente o rumo
da estória.

Al Pacino faz do polícia veterano de Los Angeles que é chamado a dar apoio a uma esquadra numa terreola do Alaska na solução de um crime violento que vitimou uma jovem. Mas pelo caminho vai jogar um perigoso jogo de gato e rato com o assassino, que o conhece melhor do que ele previa.

Este não é um whodunit, e também não é um filme em que se gere grande suspense em torno da caça ao serial killer (como em Silêncio dos Inocentes), aliás é-nos revelado bem cedo de quem se trata. O suspense gera-se em torno da psicologia do protagonista, da forma como receamos o que ele vai fazer, pois a partir de certa altura deixamos de confiar nele.

Este tipo de filmes nem sempre resulta, pois tem um grandes nomes do cinema de Hollywood a fazer papéis bem intensos em que se pede o máximo de realismo. Mas por eles serem tão bons actores e tão profissionais naquilo que fazem, esquecemos que estamos a ver ficção e a suspension of disbelief funciona plenamente.

Este é também um filme sobre a hostilidade da velhice em relação à juventude, e as formas como os mentores por vezes nos desapontam.

domingo, 19 de maio de 2013

The Great Gatsby

Há qualquer coisa de inquietante em The Great Gatsby. Talvez não seja apenas a estória de amor trágica, talvez sejam as semelhanças com o tempo que estamos a viver, aqueles (verdadeiramente) loucos anos 20, em que o poder do dinheiro dominava acima de tudo e de todos e alguns poucos felizardos festejavam como se não houvesse amanhã. Cada vez que ouvirem um velhadas chato falar que já não há valores e que antigamente é que era, recomendem-lhe este filme.

Ok, é um Gatsby para a geração MTV, como disse e bem Eurico de Barros, mas é uma versão bem melhor do que a chatice da versão com Robert Redford e Mia Farrow. O acompanhamento musical pode nem sempre ser o mais adequado historicamente, andando a trilhar aqui e ali o hip hop e o techno, mas também nunca fui um fascista estético. Se há um filme bem feito que chame a atenção à sua génese literária, porque não? E creio que chamar ao filme um gigante videoclip contínuo acaba por ser uma acusação a roçar o cliché, pois tenho visto por vezes visto excelente cinema em alguns videoclips.

O realizador Baz Luhrmann é um grande romântico, e isso traduz-se no seu cinema no fausto colorido nem sempre natural das imagens, é lógico que isso não irá ser do agrado de toda a gente. Como tal, deixem as teorias à porta da sala de cinema. Só um cínico, um chato, ou quem nunca amou poderá tentar encontrar defeitos nesta narrativa.

É difícil falar racionalmente de um filme que apela tanto aos sentidos. Eu diria apenas que o elenco é mais do que excelente nas suas composições. DiCaprio é de facto (e usando um adjectivo antiquado) dashing como o personagem do título, o Gatsby maior do que a vida, demasiado bom para viver naquela época, demasiado bom para viver aliás em qualquer época deste mundo. Ele é o homem de sonho por excelência e vai atrair muito mulherio ao cinema, deixando muita gente com a lágrima no canto do olho. Carey Mulligan é bonita, adequadamente medíocre e corrompida como a sua adorada e e indecisa Daisy Buchanan, que irá deixar igualmente muitas mulheres com vontade de a esganar no final do filme. Muita gente fala mal da personagem de Tobey Maguire, da passividade de Nick Carraway, mas ele é essencial para fazer a ligação ao público, como o espectador único de toda aquela loucura que desfila perante os olhos dele.

Mesmo os actores com as personagens mais secundárias são excelentes - Joel Edgerton é adequadamente pegajoso como o malvado marido de Daisy, Isla Fisher como a vulgar amante logo desde o primeiro plano das meias vermelhas de renda, e Elizabeth Debicki uma presença sedutora como a amiga golfista Jordan Baker.

Se ainda não viram The Great Gatsby por esta altura e se ainda estão a ler este texto, corram rápido ao cinema a vê-lo.

sábado, 11 de maio de 2013

O Cinema e a ironia

Uma sessão de sala cheia do Alemanha Ano Zero na Cinemateca. Cheia de tias, gente endinheirada, gajos de fato caro a fumarem charuto à entrada. Que provavelmente nunca vislumbrarão sequer uma ponta do sofrimento que percorre este filme.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

quarta-feira, 1 de maio de 2013

L' Innocente

Luchino Visconti deve ter sido um dos realizadores mais fascinantes que pisaram a face da terra. Nascido numa família nobre de grandes posses na Itália, simpatizante comunista, homossexual, e com uma capacidade de criação artística de imenso bom gosto, dirigiu algumas das obras mais interessantes do cinema italiano.

Daí que cada revisão da sua filmografia seja sempre algo de deslumbrante, saltando à vista pormenores que à primeira nos haviam escapado por estarmos demasiado embrenhados na estória.

Em 1976, L' Innocente foi o canto do cisne do realizador, e que canto. Uma narrativa sobre um trio de personagens, no final do século XIX, que se vai enredar num processo inevitável de amor, luxúria, traição e morte. Aliás, a morte é um tema recorrente na obra de Visconti, e como disse e bem Alberto Seixas Santos na apresentação da sessão na Cinemateca, talvez nunca como aqui se tenha sentido a mesma tão colada à volúpia dos corpos.

Brilhantemente interpretado por três actores empenhadíssimos - Giancarlo Giannini, Laura Antonelli, e Jennifer O' Neill - sendo que Antonelli surpreende particularmente pela força inesperada que imprime à sua personagem inicialmente passiva, recomendo o filme a quem goste de bom cinema e queira qualquer coisa de diferente.


sexta-feira, 26 de abril de 2013

Prisoner of War

Entre as promoções a preço vermelho na Fnac, encontrei um jogo antigo (como tal os gráficos não são por aí além) mas muito interessante: Prisoner of War. A premissa? Somos um aviador americano que cai em território inimigo, é levado como prisioneiro de guerra em infames sítios como Stalag Lufts e Colditz, e o nosso objectivo é escapar, de forma mais silenciosa possível. Até à fuga acontecer, temos que desempenhar algumas tarefas como arranjar ferramentas, fardas alemãs, ou documentação. Se fizermos barulho ou se algum dos guardas nos vir a fazer alguma coisa suspeita, perdemos e somos obrigados a voltar ao load anterior.

É tudo muito à maneira do antigo jogo Commandos e do filme The Great Escape, é muito fixe mesmo.


quinta-feira, 25 de abril de 2013

Embora polémica, acho esta ideia deliciosamente provocadora. Porque é uma maneira de não se esquecer a História e o que aconteceu não há muito tempo.

terça-feira, 23 de abril de 2013

O Expresso de Von Ryan

Ando a colmatar algumas lacunas cinéfilas graças à biblioteca de Sintra, que agora disponibiliza uma vastidão de DVD's para requisição, totalmente de graça.

Uma delas é O Expresso de Von Ryan, que andava há uma data de tempo para ver, com Frank Sinatra no papel do herói. Podia não ser um grande grande actor, mas que trazia uma certa credibilidade aos papéis que desempenhava, isso é inegável. E havia uma dureza nele muito reminiscente de Bogart nos filmes dos anos 40. Um artista completo.

Nos papéis secundários temos rostos familiares como Trevor Howard, um actor britânico brilhante, Brad Dexter, presença assídua em westerns e film noir, e Adolfo Celi de Thunderball.

Antigamente não ligava grande coisa a filmes dos anos 60, mas estes filmes de guerra sempre me conseguiram captivar, pela capacidade de identificação com as personagens, pelo suspense das cenas de fuga, pelos fantásticos meios de produção utilizados, e pelos vilões nazis que são sempre os melhores vilões.

Von Ryan pode não ser um filme propriamente brilhante, mas cumpre sem dúvida todos os requisitos.

domingo, 21 de abril de 2013

Eye of the Devil

Penso que um dos grandes crimes da televisão por cabo portuguesa continua a ser o facto os filmes do TCM não passarem legendados em português. Porque se fossem, estou certo que seriam bem mais vistos pois a programação é excelente, só que por vezes passam lá filmes britânicos em que o sotaque cockney é impenetrável (por ex, a primeira vez que vi Get Carter não entendi patavina), e duvido que mesmo pessoas que entendem inglês compreendam o que se está para ali a falar.

Há bocadinho, no entanto, passou um filme que não precisamos de ser pros em sotaques para entender - trata-se de Eye of the Devil, um filme de terror do distante ano de 1966, uma co-produção anglo-americana.

Não é normalmente englobado em listas de filmes importantes de terror, mas é daqueles que eu mais dia menos dia teria de ver. Em parte por ter alguns dos melhores actores britânicos que pisaram a face da terra - David Niven, Deborah Kerr, Donald Pleasance e Flora Robson - mas também por ser o primeiro papel de Sharon Tate, que teve um trágico fim nas mãos da família Manson. Tate é a verdadeira surpresa do filme, a sua beleza vista através das lentes baças realça ainda mais a sua perturbadora personagem.

Aliás, ela e David Hemmings são duas das personagens mais assustadoras que me lembro de ter visto em filmes de terror, género de que eu confesso não ser grande fã. A meu ver, a vida real pode ser bem mais horrorosa do a ficção. Vejam o que aconteceu a Sharon.

sábado, 20 de abril de 2013

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Há dias os meus trilhos cruzaram-se acidentalmente com a Fnac do Colombo, um sítio que procuro evitar a todo o custo, pelo longo caminho que tem de se percorrer para lá chegar. No meio da multidão aceleradamente consumista, os meus olhos percorreram as promoções de jogos de pc a preço vermelho (as únicas que eu considero com verdadeiros preços de promoção), e descobri este muito interessante ao módico preço de 2,49 €: Death to Spies - Moment of Truth.

Death to Spies é uma espécie de Commandos, em que temos que fazer operações silenciosas, matando uma série de soldados nazis e esconder os corpos, para o alarme não ser activado. A diferença é que em Commandos vemos os nossos homens de cima, aqui temos só um protagonista, e a visão é na terceira pessoa.

O que é especialmente engraçado neste jogo é a sua premissa intrigante. Somos um agente da SMERSH, o serviço de contra-espionagem criado por Stalin durante a guerra (sim, o mesmo que faz aparições na ficção de Ian Fleming), e procuramos eliminar perigos à mãe pátria russa. O facto de não controlarmos as facções americana e britânica é bom, para variar.

Tenso, cheio de suspense, e que nos faz pensar, Death to Spies é o tipo de jogo que me enche as medidas.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Conhecer outra faceta de uma escritora

Agatha Christie é provavelmente a autora que eu li mais na minha vida, em parte pela linguagem simples, directa e despretensiosa, e em parte pela fórmula irresistível e certeira que assistimos desdobrar-se com algumas variantes nas dezenas de livros. Como era possível escrever tanto e tão bem intrigava-me também muito.

Li praticamente todos os livros em que aparecia o detective belga Hercule Poirot, bem como alguns em que ele não aparecia, mas às vezes dava-me a sensação que havia um subtil sentido de humor e comentário social mordaz por detrás de toda a tragédia dos crimes daquelas estórias e de toda a frieza do processo criminal.

A dupla do casal de detectives Tommy and Tuppence foi criada um bocado nesse sentido, de narrativas mais leves, com menos sangue e drama, e mais martinis, maior sofisticação e elegância, mais wit britânico, misturado com os sons do foxtrot e do charleston dos anos 20.

Só agora descobri, graças à RTP Memória, a série Agatha Christie's Partners in Crime e fiquei bastante agradado com essa série gravada no início dos anos 80, até porque acaba por colmatar muitas lacunas acerca da vida da escritora. O que leva uma jovem de boas famílias, com uma educação austera, com um bom casamento e sem visões de dificuldades financeiras, dedicar-se à escrita de policiais? 

Partners in Crime dá-nos grande parte das respostas. Tommy e Tuppence é um casal muito ao estilo de Nick e Nora, mas numa versão britânica. O crime acontece à sua volta, mas isso não parece ser muito grave, pois o importante é ficar cool e espezinhar a rotina. Quase que sentimos a presença da autora projectando como gostaria que fosse a sua vida diária conjugal, observando a vida animada de Tommy e Tuppence (brilhantemente interpretados por James Warwick e Francesca Annis).

A quem vir a série, à primeira vista, e sem conhecer muito sobre Christie, parecerá outra daquelas séries respeitáveis de época da BBC - glamourosa, mas frouxa e sem surpresas. Nada poderia estar mais longe da verdade.

domingo, 7 de abril de 2013

O intrigante caso do Quadro do Menino da Lágrima

Não é o título de um caso de Perry Mason mas quase que poderia ser. Depois de ler este post, relembrei estes quadros estranhos pintados por Giovanni Bragolin. Não sei se ele de facto vendeu a alma ao diabo e matou as crianças, mas o que é certo é que nunca me senti bem nas casas que tinham esta gravura, e penso que jamais conseguiria dormir durante a noite com uma criança destas a fitar-me.

sábado, 6 de abril de 2013

Como continuação da análise feita (e muito bem) aqui, acrescento apenas que a reposição de Taxi Driver no contexto actual é das escolhas mais inteligentes que me lembro de ter visto em muito tempo. Aparentemente, nada tem a ver com os filmes de Hitchcock que o antecederam (tirando outra genial banda sonora de Bernard Herrmann), mas a sua reposição aparenta quase uma espécie de aviso à classe política que nos entra pelos ecrãs diariamente - será que não têm a noção de que estão a criar vários Travis Bickles?

quinta-feira, 28 de março de 2013

O texto não é de agora, foi publicado em Dezembro na Visão, mas quando o descobri fiquei de tal forma emocionado com a lucidez da visão de José Gil, que não hesito em transcrevê-lo. É uma análise inteligente da podridão do sistema, e do porquê das coisas terem chegado aonde chegaram:


Nunca uma situação se desenhou assim para o povo português: não ter futuro, não ter perspetivas de vida social, cultural, económica, e não ter passado porque nem as competências nem a experiência adquiridas contam já para construir uma vida. Se perdemos o tempo da formação e o da esperança foi porque fomos desapossados do nosso presente. Temos apenas, em nós e diante de nós, um buraco negro.
 
O «empobrecimento» significa não ter aonde construir um fio de vida, porque se nos tirou o solo do presente que sustenta a existência. O passado de nada serve e o futuro entupiu.
O poder destrói o presente individual e coletivo de duas maneiras: sobrecarregando o sujeito de trabalho, de tarefas inadiáveis, preenchendo totalmente o tempo diário com obrigações laborais; ou retirando-lhe todo o trabalho, a capacidade de iniciativa, a possibilidade de investir, empreender, criar. Esmagando-o com horários de trabalho sobre-humanos ou reduzindo a zero o seu trabalho.
O Governo utiliza as duas maneiras com a sua política de austeridade obsessiva: por exemplo, mata os professores com horas suplementares, imperativos burocráticos excessivos e incessantes: stresse, depressões, patologias borderline enchem os gabinetes dos psiquiatras que os acolhem. É o massacre dos professores. Em exemplo contrário, com os aumentos de impostos, do desemprego, das falências, a política do Governo rouba o presente de trabalho (e de vida) aos portugueses (sobretudo jovens).
O presente não é uma dimensão abstrata do tempo, mas o que permite a consistência do movimento no fluir da vida. O que permite o encontro e a intensificação das forças vivas do passado e do futuro - para que possam irradiar no presente em múltiplas direções. Tiraram-nos os meios desse encontro, desapossaram-nos do que torna possível a afirmação da nossa presença no presente do espaço público.
Atualmente, as pessoas escondem-se, exilam-se, desaparecem enquanto seres sociais. O empobrecimento sistemático da sociedade está a produzir uma estranha atomização da população: não é já o «cada um por si», porque nada existe no horizonte do «por si». A sociabilidade esboroa-se aceleradamente, as famílias dispersam-se, fecham-se em si, e para o português o «outro» deixou de povoar os seus sonhos - porque a textura de que são feitos os sonhos está a esfarrapar-se. Não há tempo (real e mental) para o convivio. A solidariedade efetiva não chega para retecer o laço social perdido. O Governo não só está a desmantelar o Estado social, como está a destruir a sociedade civil.
Um fenómeno, propriamente terrível, está a formar-se: enquanto o buraco negro do presente engole vidas e se quebram os laços que nos ligam às coisas e aos seres, estes continuam lá, os prédios, os carros, as instituições, a sociedade. Apenas as correntes de vida que a eles nos uniam se romperam. Não pertenço já a esse mundo que permanece, mas sem uma parte de mim. O português foi expulso do seu próprio espaço continuando, paradoxalmente, a ocupá-lo. Como um zombie: deixei de ter substância, vida, estou no limite das minhas forças - em vias de me transformar num ser espetral. Sou dois: o que cumpre as ordens automaticamente e o que busca ainda uma réstia de vida para os seus, para os filhos, para si.
Sem presente, os portugueses estão a tornar-se os fantasmas de si mesmos, à procura de reaver a pura vida biológica ameaçada, de que se ausentou toda a dimensão espiritual. É a maior humilhação, a fantomatização em massa do povo português. Este Governo transforma-nos em espantalhos, humilha-nos, paralisa-nos, desapropria-nos do nosso poder de ação. É este que devemos, antes de tudo, recuperar, se queremos conquistar a nossa potência própria e o nosso país.

José Gil, in revista Visão

segunda-feira, 18 de março de 2013

O melhor remédio é rir

Murder by Death, realizado no distante ano de 1976, é uma comédia imperdível para pessoas como eu - fãs de whodunits, ou seja, de mistérios em que há um assassinato e todos tentam resolvê-lo, normalmente numa grande mansão. Parece familiar a fórmula? Foi o enredo de muitas das novelas de Agatha Christie, bem como do popular jogo de tabuleiro Cluedo.

Nem sempre a comédia é tão direccionada e tão ácida como poderia ter sido, algumas piadas são até um bocado básicas, envolvendo fluxos intestinais, e a crítica frontal ao género acaba por vir só no final, com a acusação proferida por Truman Capote - "You've tricked and fooled your readers for years. You've tortured us all with surprise endings that made no sense".

No entanto, em que outro filme é possível encontrarmos um elenco como este? Temos Alec Guiness como o mordomo cego; Elsa Lanchester como a velha detective Miss Marbles; James Coco como o anafado e pomposo detective belga e não francês; David Niven e Maggie Smith como o casal elegante de detectives Dick and Dora Charleston; Peter Sellers como o detective chinês que gosta de proferir sabedorias dos bolinhos da sorte (as melhores tiradas do filme são dele); Peter Falk como o detective durão Sam Diamond e Eileen Brennan como a sua fiel secretária.

Irresistível e imprescindível.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Qualquer coisa de estranho

E interessante também. Em cima, um jovem George Lucas há um milhão de anos atrás, discutindo uma cena no décor de THX 1138, com o actor Robert Duvall.

THX 1138 é um filme de ficção científica numa acepção mais pura, a anos luz da space opera cheia de música de Star Wars. Aliás, este é um filme de muitos silêncios, de frases interrompidas a meio, de sons confusos de multidões, de bip-bips de computadores. É também um filme de corredores longos, de pessoas vestidas de igual, de ecrãs que observam, de vigilantes metálicos.

Não é lá muito fácil de ver, é uma obra fria e pessimista, mas é compensatória a níveis cerebrais num registo de Admirável Mundo Novo ou 1984. Não admira que muitos críticos o elejam como melhor filme de Lucas.

quinta-feira, 14 de março de 2013

O exemplo de Christopher

Ontem revisitei Into the Wild, que não via desde 2007, no grande ecrã. Resisti ao revisionamento, pelo facto de acreditar que o filme não justificava uma segunda ou uma terceira análise. Mas justifica e vou explicar.

A esta hora já toda a gente conhece a saga de Christopher McCandless a caminho do Alaska, mas apetece-me falar sobre o tema, pois li opiniões de muita gente na internet a falar mal dele, dizendo que era um irresponsável que fugiu às responsabilidades, quiçá doente mental, ou até um tolo ingénuo pelo facto de ir tão pouco preparado.

Eu choca-me um pouco as pessoas reagirem assim a alguém que concretizou algo de único e diferente - mais de 100 dias na floresta indomada, sem auxílio exterior de mantimentos. Está bem que Chris acabou por falecer, em consequência de qualquer planta que tinha ingerido e não devia, mas se ele tivesse sobrevivido, estou certo que nesta altura seria uma amável e excêntrica figura televisiva, dando entrevistas e escrevendo livros de viagens, como tantos outros fazem hoje em dia.

Tudo o que fuja às normas ao status quo, é olhado com desconfiança e até com menosprezo. Uma pessoa endividar-se para pagar casa e carro ao banco, e depois ficar falido, isso não há problema, é coisa de adulto. A culpa é da crise, dos bancos, é o contexto económico, os governos.

Christopher McCandless, que serviu de base ao filme espiritual (e objectivo) de Sean Penn, é a meu ver um verdadeiro herói pós-moderno, pois não se deixou subjugar pelo que as pessoas achavam que ele devia fazer; e se fosse vivo, nesta altura seria daquelas pessoas que iluminam a vida das pessoas, e que nunca deixaria a palavra crise entrar no meio de uma conversa.

domingo, 10 de março de 2013

The Master, que foi interpretado por muita gente paranóica como um retrato da Cientologia, é sobretudo um desafio, e uma espécie de retrato filosófico do que o Homem faz para fugir à solidão.

Houve alguém que escreveu e de forma bastante inteligente, que a maior parte do cinema americano gosta de explicar tudo e depois fechar o filme com um grande e bonito laço, sem grandes hipóteses de questões posteriores, para as pessoas não irem demasiado baralhadas para casa. Não esperem isso do cinema de Paul Thomas Anderson, aqui temos que preencher alguns espaços que são deixados em branco.

É um filme intenso, de 3 interpretações brilhantes, e de muita respiração. Há muito que eu não ouvia a respiração de forma tão bem conjugada com o diálogo.

sábado, 9 de março de 2013

Pedro Almodóvar nunca foi um dos meus cineastas de cabeceira e dificilmente o será algum dia, mas devo dizer que este Todo Sobre mi Madre é impressionante. Volta e meia coloco-o no dvd, e descubro sempre coisas novas. Desta vez, deslumbrei-me com o empenho das actuações das actrizes, e com a atenção e carinho que transparece da parte do realizador. Não admira que os espanhóis tenham ganho o Oscar de melhor filme estrangeiro naquele ano.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Um exemplo a seguir

O da Grécia. Mandaram-me este link há uns dias. Ainda dizem que os gregos estão mais atrasado que nós. Em sistema penal, pelo menos, estão décadas mais avançados.

domingo, 3 de março de 2013

Ted

Tinha lido opiniões um bocado díspares acerca deste filme. Mas quando pessoas cuja opinião eu respeito me falaram coisas boas sobre o mesmo, decidi que um dia destes veria. O facto de, no passado Domingo, Seth MacFarlane ter apresentado (e muito bem) os Óscares, e ter descoberto que ele era autor do guião e realização, foi o pretexto certo.

Penso que a comédia anda muito fraquinha em anos recentes, a comédia romântica então é um género que, quem me conhece, sabe que eu abomino - pela previsibilidade, pelas piadas frouxas para não ofender ninguém. Mas este Ted consegue o feito único de ser uma comédia também romântica que funciona a todos os níveis. Não só pelo cast, não só pelo enredo, mas pelo próprio estilo da comédia que põe tudo em movimento.

Nem sempre a comédia é de bom tom, há demasiadas piadas de peidos talvez, mas nota-se o brilhantismo do criador de Family Guy a funcionar. A homenagem aos anos 80, e aos filmes que influenciaram toda uma geração (Flash Gordon é o mais referenciado); as piadas em relação à cultura popular americana; e os apartes velozes, os cutaway gags que também são frequentes na série animada, fazem as delícias de quem aprecia este estilo de humor.

A criação do urso, que num filme da Disney seria uma mera piada inócua, é um feito memorável tanto de voz como de efeitos. Mark Wahlberg e Mila Kunis contracenam com convicção com o mesmo, num tipo de interpretação que regra geral os actores consideram um inferno de trabalho, contracenar com nada de real.

Para minha surpresa, recomendo-vos e muito o filme.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Ultimamente ando a jogar um grande jogo lançado em 2005 para PC, intitulado Star Wars: Battlefront II, e tenho gostado mais do que esperava. Normalmente não ligo muito a shooters, mas como este é na linha dos filmes, dei uma chance, e não me arrependi, antes pelo contrário.

As atmosferas são realistas e detalhadas, tanto a nível da velha como da nova trilogia. Podemos controlar uma variedade de heróis e vilões da saga, tal como Obi-Wan, Anakin Skywalker, Darth Vader, Yoda, Boba Fett, ou algum dos stormtroopers (e são vários).

A banda sonora de John Williams estabelece a atmosfera ideal de mistério e de acção no decorrer da história, e encontramos todos os efeitos sonoros dos filmes, mesmo aqueles ruídos de dróides que já quase nos havíamos esquecido.

Recomendo a quem seja fã dos filmes ou de um bom jogo de acção.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

O passado e o presente

Há pessoas que não ligam muito a voltar a ver filmes, para elas uma vez chega. Outras apreciam o revisionamento dezenas de vezes (Bénard da Costa é um caso exemplar). Eu respeito o primeiro grupo para aqueles filmes que basta uma vez. Mas há filmes que é simplesmente impossível deixar de ver, uma e outra vez. Um deles é Casablanca, que já conheço há muito tempo, e que creio que será daqueles poucos filmes que me acompanharão ao longo da vida, uma vez que cada vez que volto a observá-lo descubro coisas novas que me tinham escapado.

Revisto hoje, é impossível deixar de olhar para coisas que não tinha apreciado devidamente, como a composição das personagens ser tão bem delineada para um filme tão curto. Desde os protagonistas até aos secundários, cada uma daquelas pessoas parece ter uma história imensa por trás, cada uma delas funciona harmoniosamente com o ambiente e com o enredo. Vemos alguns dos maiores actores de sempre do cinema em aparições breves - Peter Lorre, Marcel Dalio, Sidney Greenstreet. E constatamos que a mística de Casablanca tem também muito a ver com o que está por detrás do percurso de cada uma daquelas pessoas.

Houve um tempo em que foi assim, que as coisas não pareciam ser só para durar no imediato.

Constato também, para a fama de lamechas que o filme tem, entre muito boa gente que conheço, que o filme é surpreendentemente directo e convincente na sua política de sentimentos. Nada ali está a mais, todas as cenas existem por alguma razão. E isso deve-se muito a Humphrey Bogart e a Ingrid Bergman, que souberam aproximar-se das personagens com o tom certo, transcendendo a sua persona cinematográfica, fazendo algo que nem eles algum dia sonhariam - imprimir na mitologia dos tempos Rick e Ilsa.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Os loucos anos 20

Gostei bastante mais de Cotton Club agora, do que quando o vi há uns anos atrás. Talvez pelo facto da primeira vez ter esperado qualquer coisa mais pesada, na linha do Padrinho, e talvez tenha apreciado mais agora por me ter tornado enorme fã da música jazz.

É um filme de gangsters sim, mas é mais um musical a meu ver, pois a música tem um papel preponderante na acção, e vai comentando o que está a acontecer. As re-orquestrações primorosas de John Barry da música original de Duke Ellington ficam no ouvido e os números de danças são fantasticamente filmados por Coppola. Gosto especialmente do número do final de Gregory Hines, em que o palco e a realidade vão-se misturando aos nossos olhos.

Lá por o filme ser musical, o rigor histórico não deixa de ser irrepreensível. Nota-se o olhar de um realizador cuidadoso atrás da câmara. E o cast tem actores soberbos, como Bob Hoskins e Fred Gwynne, que fazem uma dupla memorável de gangsters simpáticos. Mas a meu ver, quem mais brilha aqui é Diane Lane, com um guarda-roupa de vamp estupendo, ela é absolutamente divina.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Lendo

Este livro, que pensei em comprar há uns tempos na fnac, mas não tinha dinheiro suficiente; e que a biblioteca de Sintra resolveu em boa hora adquirir.

Trata-se de uma visão que um inglês que vive há anos em Portugal tem do nosso país, as nossas qualidades e os nossos defeitos. Escrito de forma inteligente e com grande sentido de humor.