quinta-feira, 28 de março de 2013

O texto não é de agora, foi publicado em Dezembro na Visão, mas quando o descobri fiquei de tal forma emocionado com a lucidez da visão de José Gil, que não hesito em transcrevê-lo. É uma análise inteligente da podridão do sistema, e do porquê das coisas terem chegado aonde chegaram:


Nunca uma situação se desenhou assim para o povo português: não ter futuro, não ter perspetivas de vida social, cultural, económica, e não ter passado porque nem as competências nem a experiência adquiridas contam já para construir uma vida. Se perdemos o tempo da formação e o da esperança foi porque fomos desapossados do nosso presente. Temos apenas, em nós e diante de nós, um buraco negro.
 
O «empobrecimento» significa não ter aonde construir um fio de vida, porque se nos tirou o solo do presente que sustenta a existência. O passado de nada serve e o futuro entupiu.
O poder destrói o presente individual e coletivo de duas maneiras: sobrecarregando o sujeito de trabalho, de tarefas inadiáveis, preenchendo totalmente o tempo diário com obrigações laborais; ou retirando-lhe todo o trabalho, a capacidade de iniciativa, a possibilidade de investir, empreender, criar. Esmagando-o com horários de trabalho sobre-humanos ou reduzindo a zero o seu trabalho.
O Governo utiliza as duas maneiras com a sua política de austeridade obsessiva: por exemplo, mata os professores com horas suplementares, imperativos burocráticos excessivos e incessantes: stresse, depressões, patologias borderline enchem os gabinetes dos psiquiatras que os acolhem. É o massacre dos professores. Em exemplo contrário, com os aumentos de impostos, do desemprego, das falências, a política do Governo rouba o presente de trabalho (e de vida) aos portugueses (sobretudo jovens).
O presente não é uma dimensão abstrata do tempo, mas o que permite a consistência do movimento no fluir da vida. O que permite o encontro e a intensificação das forças vivas do passado e do futuro - para que possam irradiar no presente em múltiplas direções. Tiraram-nos os meios desse encontro, desapossaram-nos do que torna possível a afirmação da nossa presença no presente do espaço público.
Atualmente, as pessoas escondem-se, exilam-se, desaparecem enquanto seres sociais. O empobrecimento sistemático da sociedade está a produzir uma estranha atomização da população: não é já o «cada um por si», porque nada existe no horizonte do «por si». A sociabilidade esboroa-se aceleradamente, as famílias dispersam-se, fecham-se em si, e para o português o «outro» deixou de povoar os seus sonhos - porque a textura de que são feitos os sonhos está a esfarrapar-se. Não há tempo (real e mental) para o convivio. A solidariedade efetiva não chega para retecer o laço social perdido. O Governo não só está a desmantelar o Estado social, como está a destruir a sociedade civil.
Um fenómeno, propriamente terrível, está a formar-se: enquanto o buraco negro do presente engole vidas e se quebram os laços que nos ligam às coisas e aos seres, estes continuam lá, os prédios, os carros, as instituições, a sociedade. Apenas as correntes de vida que a eles nos uniam se romperam. Não pertenço já a esse mundo que permanece, mas sem uma parte de mim. O português foi expulso do seu próprio espaço continuando, paradoxalmente, a ocupá-lo. Como um zombie: deixei de ter substância, vida, estou no limite das minhas forças - em vias de me transformar num ser espetral. Sou dois: o que cumpre as ordens automaticamente e o que busca ainda uma réstia de vida para os seus, para os filhos, para si.
Sem presente, os portugueses estão a tornar-se os fantasmas de si mesmos, à procura de reaver a pura vida biológica ameaçada, de que se ausentou toda a dimensão espiritual. É a maior humilhação, a fantomatização em massa do povo português. Este Governo transforma-nos em espantalhos, humilha-nos, paralisa-nos, desapropria-nos do nosso poder de ação. É este que devemos, antes de tudo, recuperar, se queremos conquistar a nossa potência própria e o nosso país.

José Gil, in revista Visão

segunda-feira, 18 de março de 2013

O melhor remédio é rir

Murder by Death, realizado no distante ano de 1976, é uma comédia imperdível para pessoas como eu - fãs de whodunits, ou seja, de mistérios em que há um assassinato e todos tentam resolvê-lo, normalmente numa grande mansão. Parece familiar a fórmula? Foi o enredo de muitas das novelas de Agatha Christie, bem como do popular jogo de tabuleiro Cluedo.

Nem sempre a comédia é tão direccionada e tão ácida como poderia ter sido, algumas piadas são até um bocado básicas, envolvendo fluxos intestinais, e a crítica frontal ao género acaba por vir só no final, com a acusação proferida por Truman Capote - "You've tricked and fooled your readers for years. You've tortured us all with surprise endings that made no sense".

No entanto, em que outro filme é possível encontrarmos um elenco como este? Temos Alec Guiness como o mordomo cego; Elsa Lanchester como a velha detective Miss Marbles; James Coco como o anafado e pomposo detective belga e não francês; David Niven e Maggie Smith como o casal elegante de detectives Dick and Dora Charleston; Peter Sellers como o detective chinês que gosta de proferir sabedorias dos bolinhos da sorte (as melhores tiradas do filme são dele); Peter Falk como o detective durão Sam Diamond e Eileen Brennan como a sua fiel secretária.

Irresistível e imprescindível.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Qualquer coisa de estranho

E interessante também. Em cima, um jovem George Lucas há um milhão de anos atrás, discutindo uma cena no décor de THX 1138, com o actor Robert Duvall.

THX 1138 é um filme de ficção científica numa acepção mais pura, a anos luz da space opera cheia de música de Star Wars. Aliás, este é um filme de muitos silêncios, de frases interrompidas a meio, de sons confusos de multidões, de bip-bips de computadores. É também um filme de corredores longos, de pessoas vestidas de igual, de ecrãs que observam, de vigilantes metálicos.

Não é lá muito fácil de ver, é uma obra fria e pessimista, mas é compensatória a níveis cerebrais num registo de Admirável Mundo Novo ou 1984. Não admira que muitos críticos o elejam como melhor filme de Lucas.

quinta-feira, 14 de março de 2013

O exemplo de Christopher

Ontem revisitei Into the Wild, que não via desde 2007, no grande ecrã. Resisti ao revisionamento, pelo facto de acreditar que o filme não justificava uma segunda ou uma terceira análise. Mas justifica e vou explicar.

A esta hora já toda a gente conhece a saga de Christopher McCandless a caminho do Alaska, mas apetece-me falar sobre o tema, pois li opiniões de muita gente na internet a falar mal dele, dizendo que era um irresponsável que fugiu às responsabilidades, quiçá doente mental, ou até um tolo ingénuo pelo facto de ir tão pouco preparado.

Eu choca-me um pouco as pessoas reagirem assim a alguém que concretizou algo de único e diferente - mais de 100 dias na floresta indomada, sem auxílio exterior de mantimentos. Está bem que Chris acabou por falecer, em consequência de qualquer planta que tinha ingerido e não devia, mas se ele tivesse sobrevivido, estou certo que nesta altura seria uma amável e excêntrica figura televisiva, dando entrevistas e escrevendo livros de viagens, como tantos outros fazem hoje em dia.

Tudo o que fuja às normas ao status quo, é olhado com desconfiança e até com menosprezo. Uma pessoa endividar-se para pagar casa e carro ao banco, e depois ficar falido, isso não há problema, é coisa de adulto. A culpa é da crise, dos bancos, é o contexto económico, os governos.

Christopher McCandless, que serviu de base ao filme espiritual (e objectivo) de Sean Penn, é a meu ver um verdadeiro herói pós-moderno, pois não se deixou subjugar pelo que as pessoas achavam que ele devia fazer; e se fosse vivo, nesta altura seria daquelas pessoas que iluminam a vida das pessoas, e que nunca deixaria a palavra crise entrar no meio de uma conversa.

domingo, 10 de março de 2013

The Master, que foi interpretado por muita gente paranóica como um retrato da Cientologia, é sobretudo um desafio, e uma espécie de retrato filosófico do que o Homem faz para fugir à solidão.

Houve alguém que escreveu e de forma bastante inteligente, que a maior parte do cinema americano gosta de explicar tudo e depois fechar o filme com um grande e bonito laço, sem grandes hipóteses de questões posteriores, para as pessoas não irem demasiado baralhadas para casa. Não esperem isso do cinema de Paul Thomas Anderson, aqui temos que preencher alguns espaços que são deixados em branco.

É um filme intenso, de 3 interpretações brilhantes, e de muita respiração. Há muito que eu não ouvia a respiração de forma tão bem conjugada com o diálogo.

sábado, 9 de março de 2013

Pedro Almodóvar nunca foi um dos meus cineastas de cabeceira e dificilmente o será algum dia, mas devo dizer que este Todo Sobre mi Madre é impressionante. Volta e meia coloco-o no dvd, e descubro sempre coisas novas. Desta vez, deslumbrei-me com o empenho das actuações das actrizes, e com a atenção e carinho que transparece da parte do realizador. Não admira que os espanhóis tenham ganho o Oscar de melhor filme estrangeiro naquele ano.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Um exemplo a seguir

O da Grécia. Mandaram-me este link há uns dias. Ainda dizem que os gregos estão mais atrasado que nós. Em sistema penal, pelo menos, estão décadas mais avançados.

domingo, 3 de março de 2013

Ted

Tinha lido opiniões um bocado díspares acerca deste filme. Mas quando pessoas cuja opinião eu respeito me falaram coisas boas sobre o mesmo, decidi que um dia destes veria. O facto de, no passado Domingo, Seth MacFarlane ter apresentado (e muito bem) os Óscares, e ter descoberto que ele era autor do guião e realização, foi o pretexto certo.

Penso que a comédia anda muito fraquinha em anos recentes, a comédia romântica então é um género que, quem me conhece, sabe que eu abomino - pela previsibilidade, pelas piadas frouxas para não ofender ninguém. Mas este Ted consegue o feito único de ser uma comédia também romântica que funciona a todos os níveis. Não só pelo cast, não só pelo enredo, mas pelo próprio estilo da comédia que põe tudo em movimento.

Nem sempre a comédia é de bom tom, há demasiadas piadas de peidos talvez, mas nota-se o brilhantismo do criador de Family Guy a funcionar. A homenagem aos anos 80, e aos filmes que influenciaram toda uma geração (Flash Gordon é o mais referenciado); as piadas em relação à cultura popular americana; e os apartes velozes, os cutaway gags que também são frequentes na série animada, fazem as delícias de quem aprecia este estilo de humor.

A criação do urso, que num filme da Disney seria uma mera piada inócua, é um feito memorável tanto de voz como de efeitos. Mark Wahlberg e Mila Kunis contracenam com convicção com o mesmo, num tipo de interpretação que regra geral os actores consideram um inferno de trabalho, contracenar com nada de real.

Para minha surpresa, recomendo-vos e muito o filme.