terça-feira, 21 de maio de 2013

Uma questão de moral

Insomnia é um daqueles filmes que inicialmente tudo aponta para que seja de uma maneira, mas que volvida meia hora há um acontecimento inesperado que muda completamente o rumo
da estória.

Al Pacino faz do polícia veterano de Los Angeles que é chamado a dar apoio a uma esquadra numa terreola do Alaska na solução de um crime violento que vitimou uma jovem. Mas pelo caminho vai jogar um perigoso jogo de gato e rato com o assassino, que o conhece melhor do que ele previa.

Este não é um whodunit, e também não é um filme em que se gere grande suspense em torno da caça ao serial killer (como em Silêncio dos Inocentes), aliás é-nos revelado bem cedo de quem se trata. O suspense gera-se em torno da psicologia do protagonista, da forma como receamos o que ele vai fazer, pois a partir de certa altura deixamos de confiar nele.

Este tipo de filmes nem sempre resulta, pois tem um grandes nomes do cinema de Hollywood a fazer papéis bem intensos em que se pede o máximo de realismo. Mas por eles serem tão bons actores e tão profissionais naquilo que fazem, esquecemos que estamos a ver ficção e a suspension of disbelief funciona plenamente.

Este é também um filme sobre a hostilidade da velhice em relação à juventude, e as formas como os mentores por vezes nos desapontam.

domingo, 19 de maio de 2013

The Great Gatsby

Há qualquer coisa de inquietante em The Great Gatsby. Talvez não seja apenas a estória de amor trágica, talvez sejam as semelhanças com o tempo que estamos a viver, aqueles (verdadeiramente) loucos anos 20, em que o poder do dinheiro dominava acima de tudo e de todos e alguns poucos felizardos festejavam como se não houvesse amanhã. Cada vez que ouvirem um velhadas chato falar que já não há valores e que antigamente é que era, recomendem-lhe este filme.

Ok, é um Gatsby para a geração MTV, como disse e bem Eurico de Barros, mas é uma versão bem melhor do que a chatice da versão com Robert Redford e Mia Farrow. O acompanhamento musical pode nem sempre ser o mais adequado historicamente, andando a trilhar aqui e ali o hip hop e o techno, mas também nunca fui um fascista estético. Se há um filme bem feito que chame a atenção à sua génese literária, porque não? E creio que chamar ao filme um gigante videoclip contínuo acaba por ser uma acusação a roçar o cliché, pois tenho visto por vezes visto excelente cinema em alguns videoclips.

O realizador Baz Luhrmann é um grande romântico, e isso traduz-se no seu cinema no fausto colorido nem sempre natural das imagens, é lógico que isso não irá ser do agrado de toda a gente. Como tal, deixem as teorias à porta da sala de cinema. Só um cínico, um chato, ou quem nunca amou poderá tentar encontrar defeitos nesta narrativa.

É difícil falar racionalmente de um filme que apela tanto aos sentidos. Eu diria apenas que o elenco é mais do que excelente nas suas composições. DiCaprio é de facto (e usando um adjectivo antiquado) dashing como o personagem do título, o Gatsby maior do que a vida, demasiado bom para viver naquela época, demasiado bom para viver aliás em qualquer época deste mundo. Ele é o homem de sonho por excelência e vai atrair muito mulherio ao cinema, deixando muita gente com a lágrima no canto do olho. Carey Mulligan é bonita, adequadamente medíocre e corrompida como a sua adorada e e indecisa Daisy Buchanan, que irá deixar igualmente muitas mulheres com vontade de a esganar no final do filme. Muita gente fala mal da personagem de Tobey Maguire, da passividade de Nick Carraway, mas ele é essencial para fazer a ligação ao público, como o espectador único de toda aquela loucura que desfila perante os olhos dele.

Mesmo os actores com as personagens mais secundárias são excelentes - Joel Edgerton é adequadamente pegajoso como o malvado marido de Daisy, Isla Fisher como a vulgar amante logo desde o primeiro plano das meias vermelhas de renda, e Elizabeth Debicki uma presença sedutora como a amiga golfista Jordan Baker.

Se ainda não viram The Great Gatsby por esta altura e se ainda estão a ler este texto, corram rápido ao cinema a vê-lo.

sábado, 11 de maio de 2013

O Cinema e a ironia

Uma sessão de sala cheia do Alemanha Ano Zero na Cinemateca. Cheia de tias, gente endinheirada, gajos de fato caro a fumarem charuto à entrada. Que provavelmente nunca vislumbrarão sequer uma ponta do sofrimento que percorre este filme.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

quarta-feira, 1 de maio de 2013

L' Innocente

Luchino Visconti deve ter sido um dos realizadores mais fascinantes que pisaram a face da terra. Nascido numa família nobre de grandes posses na Itália, simpatizante comunista, homossexual, e com uma capacidade de criação artística de imenso bom gosto, dirigiu algumas das obras mais interessantes do cinema italiano.

Daí que cada revisão da sua filmografia seja sempre algo de deslumbrante, saltando à vista pormenores que à primeira nos haviam escapado por estarmos demasiado embrenhados na estória.

Em 1976, L' Innocente foi o canto do cisne do realizador, e que canto. Uma narrativa sobre um trio de personagens, no final do século XIX, que se vai enredar num processo inevitável de amor, luxúria, traição e morte. Aliás, a morte é um tema recorrente na obra de Visconti, e como disse e bem Alberto Seixas Santos na apresentação da sessão na Cinemateca, talvez nunca como aqui se tenha sentido a mesma tão colada à volúpia dos corpos.

Brilhantemente interpretado por três actores empenhadíssimos - Giancarlo Giannini, Laura Antonelli, e Jennifer O' Neill - sendo que Antonelli surpreende particularmente pela força inesperada que imprime à sua personagem inicialmente passiva, recomendo o filme a quem goste de bom cinema e queira qualquer coisa de diferente.