quarta-feira, 10 de julho de 2013

Qualquer coisa de superficial

Ver filmes maus de vez em quando também é inspirador, na medida em que vemos o mal que foi feito e de que forma uma oportunidade perdida poderia ter sido melhorada.

Ora vem esta conversa a propósito de Mestres da Ilusão, que está em cartaz nos cinemas neste momento. Eu tinha plena noção que era um risco vê-lo, mas dado o extraordinário elenco tanto jovem como sénior, resolvi dar uma chance. Além disso, os filmes sobre ilusionismo são escassos, logo achei que seria bom ver alguma coisa de novo no grande ecrã.

Deve-se dizer que este não é bem um filme de ilusionismo, é uma espécie de heist movie, em que os mágicos roubam avultadas quantias a bancos e a gente rica para depois distribuir por gente que foi injustiçada, como tal são uma espécie de grupo Robin Hood ilusionista. As personagens parecem muito cool, vestindo do melhor, andando nos melhores carros, é fácil ver que o filme aspira a ser uma espécie de Ocean's Eleven.

Mas desde cedo a credibilidade é posta em causa com situações impossíveis, com a primeira cena do assalto ao banco francês, que é revelado como truque é verdade, mas que anteriormente vimos planos das ruas de Paris, ninguém pedindo desculpa por enganar o espectador. Quando, no segundo show, vemos a única ilusionista mulher (a expressiva e mamalhuda Isla Fisher) a entrar numa bola de sabão e a voar, resolvi desistir de procurar um sentido em tudo aquilo.

Mais uma vez relembro que o elenco é de primeira água - tanto os mais jovens Jesse Eisenberg, Melanie Laurent demonstram talento e à vontade a contracenarem com "monstros" sagrados como Michael Caine e Morgan Freeman - o problema é que as personagens que interpretam são unidimensionais, e pouco nos importamos com o que lhes possa acontecer de mal ou bem. São personagens que estão lá para cumprirem as suas personagens tipo - os ilusionistas sofisticados e cool, os pseudo-mentores corruptos, os investigadores esforçados e cínicos.

Quando acabou o filme, reflecti com o meu amigo se o filme não seria uma metáfora perfeita do cinema actual de Hollywood, com os seus diálogos rápidos, acção incoerente, e reviravoltas a toda a hora ao ponto de não conseguirmos descortinar quem é quem. Talvez o único mérito do filme seja precisamente esse, o de cristalizar o fogo de artifício que o público pipoqueiro com deficit de atenção, ansioso de sensações constantes, já não consegue viver privado.