segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Hardcore

Hardcore, realizado por Paul Schrader (que é mais conhecido pelo seu trabalho como argumentista) no ano de 1979, é um filme muito interessante que funciona plenamente a dois níveis - em primeiro, é uma espécie de continuação de Taxi Driver, com os mesmos ambientes e personagens diferentes, em segundo, é tudo aquilo que Taken com Liam Neeson deveria ter sido e não foi, desperdiçando as oportunidades com as infindáveis cenas de acção.

Em Hardcore assistimos ao genuíno terror de ver um familiar desaparecer do mapa sem explicações, e sem grandes oportunidades de dar tareia à la Charles Bronson nos raptores. Assistimos ao autêntico buraco negro, ao inferno dantesco em que o personagem conservador de George C. Scott tem que se infiltrar, se quiser ter uma remota chance de reencontrar a filha viva. Scott dá uma interpretação monumental, daquelas que nunca são nomeadas para Óscares, mas que são os verdadeiros alicerces do trabalho que admiramos no cinema americano.

Perturbante como muitos filmes de terror aspiram a ser mas não o conseguem, Hardcore é um filme para ser visto por quem não tem medo de olhar de frente algumas realidades mais sórdidas que a humanidade pode produzir quando liga uma câmara de filmar. Tão essencial hoje como em 1979.

domingo, 22 de setembro de 2013

(Más) Imitações de Hitchcock


Tesis, realizado em Espanha por Alejandro Amenábar no distante ano de 1996, não é necessariamente um mau filme, bem pelo contrário é melhor do que muito lixo que as distribuidoras nos tentam impingir nas salas de cinema. O problema é que o potencial do filme esgota-se logo após a promissora meia hora inicial, com as inócuas e tolas reviravoltas constantes.

Aliás, não é um filme mau, é mais um filme irritante. Irritante pois tenta ser Hitchcock sem o ser, a toda a hora, sem ter a classe e a subtileza do mestre. Faz lembrar um bocado De Palma quando tenta ser Hitchcock a toda a força, em Body Double, em Blow Out.

Há potencial imenso no filme, com o mundo universitário à mistura, o advento do VHS e das câmaras de filmar portáteis, creio que o filme é inadvertidamente melhor quando mostra ambientes e realidades desse mundo dos anos 90.

Como exercício de suspense, em pseudo-homenagem a Hitchcock, deixa muito a desejar.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

O que faz um bom vilão

Já Hitchcock dizia que um filme será melhor quanto melhor for o vilão, uma lição que foi devidamente assimilada pelos actores que apareceram posteriormente nesse tipo de papéis em filmes de James Bond.

Muitas vezes, há actores que até exageram e chegam a sobrepor-se ao protagonista, não deixando a cena respirar - é o chamado overacting.

Quem me conhece, sabe bem demais porque não sigo novelas. Não tem necessariamente a ver com overacting, porque isso existe em todo o lado. Não gosto de novelas porque são simplesmente demasiado básicas na sua ética (e na sua estética), os bons são todos muitos bons, os maus são podres até ao tutano. Parece quase que não existem áreas cinzentas, parece que os bons nunca pecaram e parece que os maus nunca fizeram uma boa acção na vida.

Ora vem esta conversa a propósito de Wall Street, que aproveitei para rever hoje, e que para além de reconstatar a importância do filme na altura e hoje em dia (apesar dos computadores, dos telefones tijolo), reapreciei o fantástico desempenho de Michael Douglas como Gordon Gekko, o implacável homem de negócios que não olha a meios para atingir os fins. Gordon é um verdadeiro filho da puta, mas é um filho da puta com o qual não podemos deixar de simpatizar um bocadinho - parece gostar de arte, da boa vida, e após muitas traições da parte dele, no final vemos quase uma centelha de humanidade quando se apercebe que também ele provou do seu próprio veneno.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Blackmail

Após descobrir há poucos dias um early Hitchcock que ainda não tinha visto, fiquei com o bichinho e deu-me saudades de rever Blackmail (1929), desta vez a versão sonora, ao contrário da última vez, que vi a versão muda.

A versão sonora é bem melhor do que imaginava, mesmo apesar de não ter muito sons, dando para ver claramente a sua génese; tem muitas utilizações interessantes do som, nomeadamente na música, sendo que as personagens passam muito tempo a assobiar e um personagem chave do filme canta enquanto está ao piano. Talvez o uso mais inovador do som advenha da repetição da palavra knife, várias vezes aos ouvidos da protagonista, quando ela vai para cortar pão (semelhanças com Sabotage).

Em Blackmail já está lá tudo - desde a heroína loira "inocente", o erotismo que transpira em muitas cenas, o assassinato e a culpa, e a perseguição final num local famoso (aqui o British Museum).


segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Murder!

Murder!, filmado no longínquo ano de 1930, mesmo apesar de não ser um grande filme, é muito interessante para admiradores do mestre Hitchcock, pois revela já muitos traços do engenho visual que ele iria posteriormente demonstrar.

Logo a abrir, na primeira cena, a do grito, em que vemos o travelling para a direita sobre as janelas da vizinhança prenuncia já Rear Window em 20 anos. Há realizadores que proclamam que toda a vida fizeram o mesmo filme uma e outra vez... vendo esta cena dá para entender porque o dizem.

Depois outros momentos brilhantes como os do júri do tribunal (influência em 12 Angry Men?), em que fazem uma lavagem cerebral para todos pensarem o mesmo; momentos de humor genuinamente hitchcockianos como o polícia a interrogar os actores sendo constantemente interrompido pois eles têm que entrar em palco; ou até algumas notas surrealistas que não devem ter sido pouco amadas por Luís Buñuel, como o coro de vozes em off a matraquear repetitivamente na cabeça do protagonista ou a carpete fofa que se afunda quando se pisa...

Recomendo (está na fnac a um excelente preço)