sábado, 20 de setembro de 2014

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Ozu em Portugal


Não em carne e osso, pois para mal dos nossos pecados já morreu há muito tempo, em 1963 para ser mais preciso. Mas o que é certo é que virou moda, desde que foram exibidos Viagem a Tóquio e O Gosto do Sake o ano passado, e continuam mais 3 filmes no Nimas - A Flor do Equinócio, Bom Dia, e O Fim do Outono. Estamos na última semana de exibição.

Resisti algum tempo a ir ver, não me querendo misturar com multidões ou com hipsters sedentos de parecer bem, mas esta semana deixei-me de tretas e fui colmatar essa falha. Já havia visto filmes de Ozu no grande ecrã da Cinemateca, mas nunca nenhum com a qualidade da cópia de A Flor do Equinócio. Quase como se o filme tivesse sido filmado o ano passado. Um filme com mais de 50 anos.

Foi como reencontrar velhos amigos, ambientes há muito abandonados, mas que continuam no coração. As realidades tratadas continuam intemporais, e quem faz ficção nas telenovelas teria muito a aprender aqui, com a densidade e a contenção de sentimentos que perpassam nesta obra. Como exemplo paradigmático do génio de Ozu, o casamento que é falado amiúde ao longo de A Flor do Equinócio, não é mostrado, deixando de lado qualquer espécie de efeitos fáceis e melodramáticos que daí poderiam advir. Por mais décadas que passem nunca haverá uma telenovela que se irá abster de mostrar no mínimo 10 ou 20 casamentos.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

To Die For

You’re not anybody in America unless you’re on TV. On TV is where we learn about who we really are. Because what’s the point of doing anything worthwhile if nobody’s watching? And if people are watching, it makes you a better person.

Feito numa altura em que Nicole Kidman era gira e ainda não andava viciada nos botoxes, To Die For foi inadvertidamente um dos filmes mais premonitórios de sempre, em relação ao vício na fama e a busca da mesma no século XXI.

Suzanne Stone é uma rapariga de uma terra pequena no New Hampshire, sintomaticamente chamada Little Hope, e o seu maior sonho é atingir voos mais altos, ter um programa de televisão próprio, quiçá até chegar a Hollywood. Casa-se com um rapaz da terra, que até acha uma certa piada à mulher aparecer como apresentadora da meteorologia na televisão local, mas que a quer como mulher troféu para ter os seus filhos perfeitos. Os dados ficam lançados para a tragédia.

Vemos ao longo do filme como Suzanne é um autêntico monstro, que não olha a meio de manipular as pessoas para chegar aonde quer. Estranhamente, não deixamos de nos rir com ela e com o tom geral do filme, que é uma autêntica comédia negra, pois as pessoas que são trituradas por esta femme fatale não são totalmente isentas de defeitos. Apenas, como diz a personagem do empregador dela (Wayne Knight) "temos pena de quem se atreve a lhe dizer alguma vez não".

terça-feira, 29 de julho de 2014

Dead of Night

Já vi muitos filmes marados na minha vida, mas nenhum com a classe deste Dead of Night, filme britânico realizado em 1945, depois de um interregno em que os filmes de terror eram proibidos devido a haver outro tipo de horrores nos céus britânicos.

Um daqueles raros casos em que resulta haver mais que um realizador a dirigir, aqui as mãos pertencem a Basil Dearden, Robert Hamer, Alberto Cavalcanti e Charles Chrichton.

O filme começa com um homem que é convidado a uma casa de campo no Kent, e ao chegar fica mudo de espanto ao se aperceber que já tinha visto aquela casa, aquele anfitrião, e aqueles convidados em algum lado - nos seus sonhos. E não consegue deixar de sentir que a noite vai acabar mal, com um desfecho violento. Para dar algum apoio moral, outros convidados vão contando situações da vida, em que ocorreram eventos estranhos que não podem ser explicados de forma racional.

Um convidado conta como teve uma vez uma visão premonitória que lhe salvou a vida de um acidente mortal; uma mocita conta como numa festa numa mansão se cruzou com um menino... que havia sido assassinado há uns anos atrás; uma mulher conta como a oferta de um antigo espelho ao seu noivo quase acabava com a vida dos dois; o anfitrião conta o caso de dois amigos fãs de golfe que disputam a mesma mulher e que depois de um deles morrer, volta para assombrar o outro; e finalmente o homem mais racional do grupo, o psiquiatra, conta o bizarro caso de um ventríloquo que começa a obedecer às ordens do seu boneco.

A forma episódica com que o filme está construída adequa-se perfeitamente ao realizador que dirige cada segmento. Destaque especial para o mais conhecido e aterrorizante - o do ventríloquo possuído (genial Michael Redgrave) - que seria posteriormente copiado dezenas de vezes em séries de televisão (como Twilight Zone).

domingo, 13 de julho de 2014

Juno and the Paycock

Realizado em 1929, este é um dos raros filmes de Hitchcock, ao lado de Jamaica Inn e Under Capricorn que poderão ostentar o adjectivo de secante. Mesmo o realizador em entrevistas posteriores nunca conseguiu arranjar razões para defender esta sua obra, atribuindo a sua feitura mais à pressão dos produtores e ao sucesso da peça de teatro de Sean O' Casey em que se baseia.

Aliás, as origens teatrais são o principal handicap do filme, pois o mesmo é composto de longos takes em planos distanciados como se estivessemos a assistir mesmo a uma peça. Os sotaques irlandeses cerrados também não ajudam, para além da qualidade de som ser bastante fraca.

É quase como se a produção estivesse ainda a testar os limites do som, na altura ainda uma novidade, mas que se compararmos com o anterior Blackmail, que havia sido uma experiência bem mais feliz, e parece anos luz à frente, este dá dois passos atrás.

A única salvação do filme é a representação de Sarah Allgood, em mais um papel de mãe coragem em que ela se especializou e cristalizaria com o passar dos anos. Mesmo a representação de John Laurie é desapontante, demasiado teatral e com olhos sempre escancarados pertencendo mais ao cinema mudo.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

The Pleasure Garden

A minha cinefilia sempre foi de tentar evitar cair em armadilhas do auteurismo, tentando não chegar aos extremos dos Cahiers, que consideravam um filme fraco de um grande realizador mais interessante do que um bom filme de um realizador pouco conhecido.

Mas com Alfred Hitchcock, uma pessoa rapidamente abre uma excepção, pois o seu filme de estreia The Pleasure Garden, concebido em 1926, é um festival de motivos visuais que posteriormente apareceriam na obra do realizador. Logo a primeira cena, em que vemos as coristas de pernas desnudadas descendo as escadas em caracol, seguido de um velho a observar derretido as figuras delas com uns binóculos remetendo para Rear Window, o filme está pejado do sentido de humor ácido do mestre do suspense. Mesmo apesar de ser uma estória de pouco suspense... é mais um conto moral sobre a amizade e o sexo.

Excelentes cenas finais também, em que o vilão (Miles Mander) começa a alucinar com o fantasma da mulher que afogou.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Mães monstruosas

Ah, a maternidade... Ter um filho, o acto de amor mais bonito que uma mulher pode ter. Adoptar uma criança, o acto mais altruísta que um homem ou uma mulher pode ter, face à humanidade. Eu gosto de Angelina Jolie tanto como o próximo, mas assim que a começam a pôr num pedestal por ser embaixadora de não sei quê e adoptar dúzias de crianças multi-raciais, eu começo-me a perguntar se ela não estará a aproximar-se de uma fase Mommie Dearest na sua carreira.

Mommie Dearest, para o caso de vocês cinéfilos incompletos não saberem, é um filme fantástico baseado nas memórias de abuso e violência de Christina Crawford, a filha adoptiva da super estrela de Hollywood Joan Crawford. Que também fazia bonitos discursos aos jornalistas de querer mudar o mundo, de que se pudesse adoptaria todos os orfãos do mundo. O filme irá mudar para sempre a vossa imagem da actriz de The Women, Mildred Pierce, Johnny Guitar. Aliás irá mudar para sempre a vossa maneira de olhar para os astros de Hollywood que são adulados, fotografados e copiados 24 horas por dia.

Injustamente massacrado pela crítica aquando da estreia (por simplesmente ainda estar demasiado enfeitiçada pelo legado de Crawford e pela "magia" da tinseltown), o filme é um ensaio severo e imperdível em assuntos como a fama e a reverência que continuamos a demonstrar pelas estrelas de cinema... mesmo apesar de conhecermos tão pouco sobre as mesmas.

sábado, 17 de maio de 2014

Shadow of a Doubt

Nunca tinha valorizado muito esta relíquia dos anos 40, a obra favorita de Hitchcock da criação do próprio, principalmente em comparação com obras ousadas como Psycho e Vertigo, mas ao reapreciar agora volvido tanto tempo, constato as suas múltiplas qualidades - a principal é a de trazer o assassinato ao seio familiar, que é onde devia estar nas palavras do realizador.

Mesmo apesar de ser tão contra o status quo, como no primeiro diálogo do filme a jovem Charlie demonstra, isso não a impedirá de tentar proteger a sua família e a sua pequena comunidade da ameaça que pesa sobre as mesmas na forma escondida do seu tio Charlie, o serial killer de viúvas patetas, também conhecido como o assassino da "Viúva Alegre".

Com vários apontamentos de humor negro sendo rematados mais ou menos de forma constante (e aqui vemos um bocado a génese do que seria depois a série "Alfred Hitchcock Apresenta"), o filme pode ser apreciado tanto hoje como quando foi filmado pela sua ousadia temática e pela abordagem subtil a temas bem mais violentos, como o incesto.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Uma estranha relíquia do passado

The Detective, filme realizado em 1968 de forma algo indistinta por Gordon Douglas, é mais conhecido por ser provavelmente o primeiro filme de Hollywood a não mostrar os homossexuais como degenerados a serem abatidos.

Protagonizado por Frank Sinatra, dando mais convicção ao papel do que o habitual, ele representa o detective durão à maneira de Bogart, com princípios em vias de extinção no mundo em que deambula, mas que não discrimina gays. Há uma cena imperdível no filme em que ele dá um soco valente a Robert Duvall por o mesmo estar a torturar um grupo de prostitutos nas docas.

Aliás, o filme não é muito mais do que isso. Frank a dar socos no estômago de quem o chateia. E sempre da mesma forma - ele chama-os de lado, e dá. Contei pelo menos três. O plot romântico com Lee Remick é também muito irrelevante para a acção e poderia ter sido facilmente descartado. O filme teria muito mais a ganhar se tivesse tido uma abordagem à la Chinatown, acerca da corrupção nos meandros da polícia em Nova Iorque.

Destaque para o elenco secundário excelente - uma jovem e talentosa Jacqueline Bisset como a viúva que vai lançar Frank no segundo caso, William Windom como o seu marido no armário, e Lloyd Bochner como o psiquiatra suspeito com intenções aparentemente nebulosas.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Cinema smart ass

Confessions of a Dangerous Mind teve largos elogios da crítica quando estreou há uns anos atrás, e após ler a intrigante (extraordinária, para dizer a verdade) premissa, fiquei durante muito tempo com o bichinho de ver o filme.

Ontem finalmente a ocasião proporcionou-se, e devo dizer que não entendo o porquê de tanto alarido. Só pode ser por ter sido o primeiro esforço de George Clooney atrás das câmaras, e a publicidade que ele deve ter feito para isso.

O filme tem uma personagem principal execrável (Sam Rockwell), egocêntrica e um pioneiro da reality tv (a ele pertence a génese de clássicos como The Dating Game ou The Gong Show). É dificílimo conseguirmos identificar-nos com tal personagem, principalmente ao acabar o filme quando já a conhecemos minimamente bem, acreditar que aquilo que aconteceu foi real e não um produto da sua imaginação fértil e ávida de publicidade.

Muito difícil é também acreditar em Julia Roberts como uma mestre espia com chapéus grandes à la Coco Chanel, ou mesmo em Clooney como uma espécie de Ed Harris em A Beautiful Mind numa postura cínica de "eu já vi tudo" e com um bigode postiço bem fraquinho.

O protótipo de cinema smart ass que tem vindo a ser moda nos últimos 15 anos e que se deve evitar.

domingo, 20 de abril de 2014

Belle de Jour para o século XXI

Jeune et Jolie é talvez o filme mais discreto e interessante do realizador francês outrora proclamado como discípulo de Fassbinder François Ozon. Com a sua visão de não julgamento sobre a protagonista, e o tom seco sem rodeios, acaba por fazer mais pelo tema da prostituição do que duas dúzias de debates televisivos e reportagens na imprensa.

Incrível ainda como apesar da subtileza, o filme consegue atacar de frente alguns dos fantasmas e ansiedades da classe média. A não perder.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Tarzan, the Ape Man

Volvidos tantos filmes de Tarzan, com vários actores, de todas as formas e feitios (está aí mais um filme em cartaz), versões animadas da Disney tanto para tv como para cinema, nada como regressar à versão original produzida pela MGM com Johnny Weissmuller.

Ora o filme está bastante bem feito, e bastante menos datado do que possa parecer à primeira vista. Em termos de políticas sexuais, Jane é uma heroína bastante desenrascada, que consegue disparar com destreza, não é a típica rapariga aos gritos sempre que aparece um animal selvagem. Nesse aspecto, elogios sejam feitos a Maureen O'Sullivan, que desempenha de forma notável e definitiva a personagem, deixando a um canto muitas das personagens interpretadas pela filha Mia Farrow, anos mais tarde em filmes de Woody Allen por exemplo.

O aspecto desactualizado que mais incomoda trata-se de algo técnico - os actores a representarem e a reagirem em frente a uma stock footage muito fake e desproporcionada de indígenas africanos.

De resto, as cenas com os animais são excelentes, as lutas dos duplos com os leões e leoas são impressionantes, e a mensagem pró-ecológica é notoriamente bem anterior aos anos 60. A meu ver, este é um dos filmes essenciais dos anos 30 e do século XX.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Scenes from the Class Struggle in Portugal

Esqueçam pastelões televisivos como A Hora da Liberdade, ou filmes-lixo com actores italianos a serem dobrados de forma bastante manhosa como Capitães de Abril. O melhor filme que vi até hoje sobre a nossa revolução passou hoje na Cinemateca na sessão das 19. E foi realizado por um americano ainda por cima - Robert Kramer.

Feito sob a forma de documentário, com montes de entrevistas que nunca passam (porque será?) na televisão, o filme está construído de forma tão tensa que quase nos convence que é um thriller o que estamos a ver, e não a realidade.

Deveria ser de visualização obrigatória à nossa classe de governantes e àquela classe de pessoas que passeiam as suas roupinhas de marca pela Avenida da Liberdade e que franzem o sobrolho aos sem-abrigo.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Abril

O meu Abril vai ser principalmente pela Cinemateca a ver os filmes no ciclo da Festa do Cinema Italiano, e revendo os filmes do Elia Kazan que estão a ser transmitidos aos Sábados à noite no segundo canal.

terça-feira, 4 de março de 2014

Less Than Zero

Less Than Zero, baseado na novela homónima de Bret Easton Ellis, e que recebeu o comprido título em português A Última Viagem em Beverly Hills, é um filme muito interessante mesmo apesar ser livremente adaptadado.

O filme opta por focar-se no triângulo de amigos Clay/Blair/Julian, para além de apresentar uma visão bem mais limpa das vivências nocturnas dos seus protagonistas na LA dos anos 80, escolha talvez feita com vista numa maior abrangência de públicos, para não alienar espectadores de outras faixas etárias. Foi o suficiente para incorrer na ira do autor, mesmo que a opinião do mesmo tenha ficado mais moderada com o passar dos anos.

Não obstante, o filme é um retrato realista de uma geração e dos malefícios que a cocaína pode causar, mesmo em famílias americanas abastadas. Robert Downey Jr. teve aqui a sua rampa de lançamento com uma interpretação tão genial quanto aterrorizante, sendo que hoje sabemos da história pessoal do actor.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

A Mulher Aranha

Os adaptações das estórias de Sherlock Holmes, produzidas pela Universal nas décadas de 30 e 40, são o protótipo do excelente cinema que se pode fazer, mesmo sendo "traduzidas" para a linguagem do grande ecrã de forma bastanta livre e sem se gastar muito dinheiro com efeitos visuais e grandes estrelas.

Sherlock Holmes in the Spider Woman é um bom exemplo. Apesar de trazer os personagens à época contemporânea - a Inglaterra do tempo da 2ª Guerra - não descura na homenagem ao grande detective e às nuances do seu modo de investigar. Basil Rathbone é simplesmente brilhante nesse campo, trazendo energia e convicção ao papel, não admira que ainda hoje seja considerado por muitos o melhor Holmes de sempre.

Destaque ainda para a presença de Gale Sondergaard, a femme fatale de serviço, uma espécie de Moriarty de saias, que por várias vezes tenta neutralizar o nosso herói detective.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Uma heroína para século XXI

Normalmente, sigo aquele princípio do meu irmão de não ler livros depois de ver o filme baseado no mesmo. Mas uma vez lidos o segundo e o terceiro volume (respectivamente A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo e A Rapariga no Palácio das Correntes de Ar), e surpreendido pelo poder da prosa de Stieg Larsson, decidi-me a ler também o primeiro volume, intitulado Os Homens que Odeiam as Mulheres. Já havia assistido à adaptação americana no cinema, e depois em casa a anterior versão sueca, mas mesmo assim não deixei de me maravilhar com a forma como a narrativa de desenrola, a caracterização das personagens, e o suspense que é criado mesmo apesar de saber bem quem era o assassino.

E não pude deixar de reflectir em retrospectiva, nos temas que o livro aborda e nas razões do mega sucesso de Larsson - temas como a violência sobre as mulheres, machismo, misoginia, serial killers continuam bastante na ordem do dia, e varrê-los para debaixo do tapete não é de maneira nenhuma solução.

Mesmo apesar de vir escrito sob a forma de policial, não é motivo para o menosprezar pois as duas personagens principais, Mikael Blomqvist e Lisbeth Salander, têm em diversas ocasiões conversas significativas sobre o hediondo mistério que estão a desvendar. Blomqvist tem bom coração e tem a sua dose de coragem, ocupando uma maior parte da acção nos livros, mas é demasiado pequeno-burguês, algo ingénuo e pouco precavido. A verdadeira heroína é Lisbeth, uma verdadeira guerreira, apesar do seu aspecto frágil e look de punk gótica.

Perto do final do livro os dois têm o meu diálogo favorito da trilogia, em que ele tenta racionalizar todo o mal a que assistiram para continuar a acreditar no bem da Humanidade. Ela dispara-lhe argumentos que ele não consegue responder, dando o seu próprio exemplo de vida, o mal que lhe fizeram e como ela não se tornou nenhuma serial killer, mesmo apesar de ele não compreender a dimensão de toda a história de vida dela naquele momento.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Actrizes a sério

Normalmente existe a tendência a, quando se fala em grandes interpretações, mencionarem Meryl Streep ou algumas divas de Ingmar Bergman. Nada contra, mas deixem-me dizer que na ressaca do último Scorsese foi bom ver o velhinho Alice Doesn't Live Here Anymore, e constatar (para surpresa minha) como o realizador pode trazer à tona a excelência da arte da representação com três grandes senhoras: Ellen Burstyn, Diane Ladd e uma muito jovem Jodie Foster.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Famílias alternativas

Qualquer coisa me faz voltar ocasionalmente a Almodóvar. Talvez sejam as cores fortes, as personagens que têm sexualidades tão alternativas mas tão isentas de culpa, que se torna quase terapêutico ver filmes do realizador.

Lei do Desejo é dos melhores que vi dele, talvez por ter as paixões tão ao rubro (é uma estória de amor louco), mas por ser realizado com tanta convicção e nunca deixar de ter um sentido e humor vivo que vai pontuando cada acção escabrosa das personagens.

Lei do Desejo é também ajudado pelo seu trio de actores principais muito competente, principalmente Antonio Banderas, que em circunstâncias normais não simpatizaríamos por ser uma espécie de stalker psicopata, mas que no final não deixamos de ter uma certa pena, e a personagem de Carmen Maura, como a irmã transsexual do protagonista, alguém que já levou tanta pancada da vida, mas que não deixa de nos maravilhar com a sua energia e força de vida.

Aliás, algo que perpassa nos melhores filmes de Almodóvar é o amor que ele sente por estas personagens, mesmo quando elas fazem coisas algo condenáveis ele dá-lhes algumas linhas brilhantes, ninguém é totalmente mau aqui. E vê-se que são baseadas em muita gente com que se cruzou e que amou ao longo da vida.

Quer se goste quer não, Pedro Almodóvar é um legítimo autor como há poucos.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

A verdadeira face de um vilão

Se há uma coisa que um espectador gosta, é de um vilão bem delineado, se tiver um passado trágico ainda melhor, pois acaba por ficar redimido aos nossos olhos.  Darth Vader é um exemplo paradigmático.

Penso que não joga muito a favor do cinema que a melhor encarnação de Mr. Freeze no ecrã pertença ao episódio Heart of Ice na série animada televisiva de Batman, e não a Arnold Shwarzenegger no filme Batman & Robin, o infame capítulo que arruinou o franchise durante largos anos.

Neste episódio vemos como surgiu o personagem de Mr. Freeze, origem de tal forma pungente que foi depois copiada tal e qual na versão de carne e osso.