quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Uma heroína para século XXI

Normalmente, sigo aquele princípio do meu irmão de não ler livros depois de ver o filme baseado no mesmo. Mas uma vez lidos o segundo e o terceiro volume (respectivamente A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo e A Rapariga no Palácio das Correntes de Ar), e surpreendido pelo poder da prosa de Stieg Larsson, decidi-me a ler também o primeiro volume, intitulado Os Homens que Odeiam as Mulheres. Já havia assistido à adaptação americana no cinema, e depois em casa a anterior versão sueca, mas mesmo assim não deixei de me maravilhar com a forma como a narrativa de desenrola, a caracterização das personagens, e o suspense que é criado mesmo apesar de saber bem quem era o assassino.

E não pude deixar de reflectir em retrospectiva, nos temas que o livro aborda e nas razões do mega sucesso de Larsson - temas como a violência sobre as mulheres, machismo, misoginia, serial killers continuam bastante na ordem do dia, e varrê-los para debaixo do tapete não é de maneira nenhuma solução.

Mesmo apesar de vir escrito sob a forma de policial, não é motivo para o menosprezar pois as duas personagens principais, Mikael Blomqvist e Lisbeth Salander, têm em diversas ocasiões conversas significativas sobre o hediondo mistério que estão a desvendar. Blomqvist tem bom coração e tem a sua dose de coragem, ocupando uma maior parte da acção nos livros, mas é demasiado pequeno-burguês, algo ingénuo e pouco precavido. A verdadeira heroína é Lisbeth, uma verdadeira guerreira, apesar do seu aspecto frágil e look de punk gótica.

Perto do final do livro os dois têm o meu diálogo favorito da trilogia, em que ele tenta racionalizar todo o mal a que assistiram para continuar a acreditar no bem da Humanidade. Ela dispara-lhe argumentos que ele não consegue responder, dando o seu próprio exemplo de vida, o mal que lhe fizeram e como ela não se tornou nenhuma serial killer, mesmo apesar de ele não compreender a dimensão de toda a história de vida dela naquele momento.

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