sábado, 17 de maio de 2014

Shadow of a Doubt

Nunca tinha valorizado muito esta relíquia dos anos 40, a obra favorita de Hitchcock da criação do próprio, principalmente em comparação com obras ousadas como Psycho e Vertigo, mas ao reapreciar agora volvido tanto tempo, constato as suas múltiplas qualidades - a principal é a de trazer o assassinato ao seio familiar, que é onde devia estar nas palavras do realizador.

Mesmo apesar de ser tão contra o status quo, como no primeiro diálogo do filme a jovem Charlie demonstra, isso não a impedirá de tentar proteger a sua família e a sua pequena comunidade da ameaça que pesa sobre as mesmas na forma escondida do seu tio Charlie, o serial killer de viúvas patetas, também conhecido como o assassino da "Viúva Alegre".

Com vários apontamentos de humor negro sendo rematados mais ou menos de forma constante (e aqui vemos um bocado a génese do que seria depois a série "Alfred Hitchcock Apresenta"), o filme pode ser apreciado tanto hoje como quando foi filmado pela sua ousadia temática e pela abordagem subtil a temas bem mais violentos, como o incesto.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Uma estranha relíquia do passado

The Detective, filme realizado em 1968 de forma algo indistinta por Gordon Douglas, é mais conhecido por ser provavelmente o primeiro filme de Hollywood a não mostrar os homossexuais como degenerados a serem abatidos.

Protagonizado por Frank Sinatra, dando mais convicção ao papel do que o habitual, ele representa o detective durão à maneira de Bogart, com princípios em vias de extinção no mundo em que deambula, mas que não discrimina gays. Há uma cena imperdível no filme em que ele dá um soco valente a Robert Duvall por o mesmo estar a torturar um grupo de prostitutos nas docas.

Aliás, o filme não é muito mais do que isso. Frank a dar socos no estômago de quem o chateia. E sempre da mesma forma - ele chama-os de lado, e dá. Contei pelo menos três. O plot romântico com Lee Remick é também muito irrelevante para a acção e poderia ter sido facilmente descartado. O filme teria muito mais a ganhar se tivesse tido uma abordagem à la Chinatown, acerca da corrupção nos meandros da polícia em Nova Iorque.

Destaque para o elenco secundário excelente - uma jovem e talentosa Jacqueline Bisset como a viúva que vai lançar Frank no segundo caso, William Windom como o seu marido no armário, e Lloyd Bochner como o psiquiatra suspeito com intenções aparentemente nebulosas.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Cinema smart ass

Confessions of a Dangerous Mind teve largos elogios da crítica quando estreou há uns anos atrás, e após ler a intrigante (extraordinária, para dizer a verdade) premissa, fiquei durante muito tempo com o bichinho de ver o filme.

Ontem finalmente a ocasião proporcionou-se, e devo dizer que não entendo o porquê de tanto alarido. Só pode ser por ter sido o primeiro esforço de George Clooney atrás das câmaras, e a publicidade que ele deve ter feito para isso.

O filme tem uma personagem principal execrável (Sam Rockwell), egocêntrica e um pioneiro da reality tv (a ele pertence a génese de clássicos como The Dating Game ou The Gong Show). É dificílimo conseguirmos identificar-nos com tal personagem, principalmente ao acabar o filme quando já a conhecemos minimamente bem, acreditar que aquilo que aconteceu foi real e não um produto da sua imaginação fértil e ávida de publicidade.

Muito difícil é também acreditar em Julia Roberts como uma mestre espia com chapéus grandes à la Coco Chanel, ou mesmo em Clooney como uma espécie de Ed Harris em A Beautiful Mind numa postura cínica de "eu já vi tudo" e com um bigode postiço bem fraquinho.

O protótipo de cinema smart ass que tem vindo a ser moda nos últimos 15 anos e que se deve evitar.