terça-feira, 29 de julho de 2014

Dead of Night

Já vi muitos filmes marados na minha vida, mas nenhum com a classe deste Dead of Night, filme britânico realizado em 1945, depois de um interregno em que os filmes de terror eram proibidos devido a haver outro tipo de horrores nos céus britânicos.

Um daqueles raros casos em que resulta haver mais que um realizador a dirigir, aqui as mãos pertencem a Basil Dearden, Robert Hamer, Alberto Cavalcanti e Charles Chrichton.

O filme começa com um homem que é convidado a uma casa de campo no Kent, e ao chegar fica mudo de espanto ao se aperceber que já tinha visto aquela casa, aquele anfitrião, e aqueles convidados em algum lado - nos seus sonhos. E não consegue deixar de sentir que a noite vai acabar mal, com um desfecho violento. Para dar algum apoio moral, outros convidados vão contando situações da vida, em que ocorreram eventos estranhos que não podem ser explicados de forma racional.

Um convidado conta como teve uma vez uma visão premonitória que lhe salvou a vida de um acidente mortal; uma mocita conta como numa festa numa mansão se cruzou com um menino... que havia sido assassinado há uns anos atrás; uma mulher conta como a oferta de um antigo espelho ao seu noivo quase acabava com a vida dos dois; o anfitrião conta o caso de dois amigos fãs de golfe que disputam a mesma mulher e que depois de um deles morrer, volta para assombrar o outro; e finalmente o homem mais racional do grupo, o psiquiatra, conta o bizarro caso de um ventríloquo que começa a obedecer às ordens do seu boneco.

A forma episódica com que o filme está construída adequa-se perfeitamente ao realizador que dirige cada segmento. Destaque especial para o mais conhecido e aterrorizante - o do ventríloquo possuído (genial Michael Redgrave) - que seria posteriormente copiado dezenas de vezes em séries de televisão (como Twilight Zone).

domingo, 13 de julho de 2014

Juno and the Paycock

Realizado em 1929, este é um dos raros filmes de Hitchcock, ao lado de Jamaica Inn e Under Capricorn que poderão ostentar o adjectivo de secante. Mesmo o realizador em entrevistas posteriores nunca conseguiu arranjar razões para defender esta sua obra, atribuindo a sua feitura mais à pressão dos produtores e ao sucesso da peça de teatro de Sean O' Casey em que se baseia.

Aliás, as origens teatrais são o principal handicap do filme, pois o mesmo é composto de longos takes em planos distanciados como se estivessemos a assistir mesmo a uma peça. Os sotaques irlandeses cerrados também não ajudam, para além da qualidade de som ser bastante fraca.

É quase como se a produção estivesse ainda a testar os limites do som, na altura ainda uma novidade, mas que se compararmos com o anterior Blackmail, que havia sido uma experiência bem mais feliz, e parece anos luz à frente, este dá dois passos atrás.

A única salvação do filme é a representação de Sarah Allgood, em mais um papel de mãe coragem em que ela se especializou e cristalizaria com o passar dos anos. Mesmo a representação de John Laurie é desapontante, demasiado teatral e com olhos sempre escancarados pertencendo mais ao cinema mudo.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

The Pleasure Garden

A minha cinefilia sempre foi de tentar evitar cair em armadilhas do auteurismo, tentando não chegar aos extremos dos Cahiers, que consideravam um filme fraco de um grande realizador mais interessante do que um bom filme de um realizador pouco conhecido.

Mas com Alfred Hitchcock, uma pessoa rapidamente abre uma excepção, pois o seu filme de estreia The Pleasure Garden, concebido em 1926, é um festival de motivos visuais que posteriormente apareceriam na obra do realizador. Logo a primeira cena, em que vemos as coristas de pernas desnudadas descendo as escadas em caracol, seguido de um velho a observar derretido as figuras delas com uns binóculos remetendo para Rear Window, o filme está pejado do sentido de humor ácido do mestre do suspense. Mesmo apesar de ser uma estória de pouco suspense... é mais um conto moral sobre a amizade e o sexo.

Excelentes cenas finais também, em que o vilão (Miles Mander) começa a alucinar com o fantasma da mulher que afogou.